Bom senso

1 – O bom senso é uma caraterística de verdadeiros humanos. Só eles podem moderar as suas emoções pelo exercício da inteligência e com a força da vontade. Os seus frutos são indiscutíveis. Eu diria que o primeiro é a proximidade crescente da verdade, que vai favorecer a paz social.

Vem isto a propósito de afirmações e reações descontroladas, em catadupa, vomitadas por manifestações alienantes e, porventura, manipuladas, saídas de grupos auto proclamados representativos do povo português, quando representam, isso sim, minorias corporativistas radicalizadas.

É óbvio que a maioria da população do nosso país está a passar momentos muito limitativos, que a juventude não vê janelas abertas de futuro, que o escândalo das desigualdades não diminuiu…

Mas… Quem é que nos colocou nesta situação de penúria? Não andámos também iludidos com um engodo de facilidades insustentáveis? Uma greve geral será mesmo um investimento? O caminho da solução dos problemas será a insolvência generalizada, incluindo a do próprio Estado? A falta de educação é o caminho do diálogo? Terão autoridade para sugerir o caminho de demissão do governo, de uma revolução social… aqueles que sempre viveram lautamente, auferindo também dos proveitos do Estado?… Memória curta a de tanta gente, que ainda ontem nos conduzia para o abismo e hoje clama por justiça. Para os injustiçados que eles geraram?

Vem alguém, que trabalha pelo bem dos mais pobres, dizer que necessitamos de nos libertarmos de ganâncias, que o caminho da solidariedade passa por hábitos de vida mais sóbria, que a simplicidade de vida é o caminho da harmonia social… E gera-se uma “onda social” de opinião a qualificá-la de miserabilista e apêndice do salazarismo!

2 – Os números não deixam dúvidas. Mas há sempre quem não suporte a sua frieza. A manipulação dos dados do Tribunal de Contas sobre os custos da Educação só se explica pelo estertor de quem não tem outros argumentos para justificar as mordomias e benesses de um corporativismo esmagador, que, nessa matéria, aprisiona o Estado na esteira da época pombalina.

O Estado social não é o patrão de todos os portugueses. Sê-lo-á de alguns. Mas terá de ser garante de equidade social para todos, fomentando e coordenando a iniciativa da sociedade civil e assumindo, supletivamente, essa iniciativa quando necessário.

A escolha de uma filosofia de verdadeira humanidade será significativamente suportada pela convicção de fé. “Quem vive por amor a Deus e aos outros não se deixa fazer escravo da posse; não se serve dos outros, mas serve-os até ao dom maior de si e até à pobreza, opção feita precisamente por amor. Esta escolha pode inspirar não só a vida pessoal, mas também relações sociais, para realizar uma economia de comunhão que respeite a dignidade e a necessidade de cada um, e anteponha a gratuidade à posse, como fonte de humanidade verdadeira e plena, realizada segundo o desígnio de Deus. Diante do único Senhor do universo, o direito à propriedade privada nunca abole a destinação universal dos bens e o dever de promover a justiça como pressuposto da liberdade e da paz de todos”.

Seriam bem diferentes a esperança de futuro e a felicidade do presente com pessoas de bom senso, plenamente humanizadas pela inspiração evangélica. As sementes do Verbo estão por aí, em muitos espíritos, em muitos corações. Será que as dificuldades da crise lhe vão dar oportunidade de germinarem?

1 – Bruno Forte, Eis o Mistério da Fé, pg. 58.