Faleceu Dr. António Capão

Antigo professor do Magistério de Aveiro e do Seminário, António Capão era diretor do Museu da Palhaça e membro honorário da Academia de História.

Quando menos se esperava, partiu da vida terrena, com 82 anos, no dia 6 do corrente mês, a mais notável figura de sempre da freguesia da Palhaça, Dr. António Capão, cujos trabalhos em diversos campos (sobretudo linguísticos e etnográficos e leitura e publicação de Cartas de Forais, nomeadamente a de Oliveira do Bairro) foram reconhecidos pela Academia Portuguesa de História, fazendo-o seu membro honorário (2011), um alto galardão para qualquer intelectual da sua estirpe.

Dizemos inesperadamente, porque, depois de um tempo de desolação e desânimo, na sequência da perda da esposa (fevereiro último), notava-se que estava a ultrapassar esse mau momento, mais voltado para as letras e para obras na casa e saindo mais. Tinha mesmo acabado de escrever uma peça de teatro, intitulada “Um reino de amor e fantasia”, para a ADREP (Associação Desportiva, Recreativa e Educativa da Palhaça), que pretende regressar à arte dos palcos. Amante das raízes e do chão onde nasceu, mostrou-se sempre disponível para colaborar nas iniciativas da igreja ou das coletividades. Foi, nos primeiros anos e sequentes das marchas populares, levadas a cabo pela ADREP, o autor de muitas e belas letras. Medalha da Câmara, grau ouro, e entronizado membro da Confraria dos Enófilos da Bairrada (2007), presentemente era diretor do Museu da Palhaça, desde abril de 2009, entidade que assim sofre de novo um rude golpe.

Era pai de uma numerosa prole, muito unida. Sempre dedicou aos progenitores uma desvelada ternura, entretecida de muitos afetos. Os seus nove filhos (Maria do Carmo, José Armando, António Júlio, Jorge Manuel, Ana Paula, Maria Isabel, João Adelino, Maria Manuela e Pedro Carlos), para ele, eram a sua “melhor obra”, orgulhava-se em dizê-lo. Diga-se que José Armando, que vive em Moçambique, desde a independência, esteve de visita à família nos dez dias anteriores. Preparava-se para o regresso, quando recebeu a pior das notícias.

O funeral realizou-se no dia 7, quarta-feira, dia chuvoso que parece quis associar-se à tristeza de muitos. Esteve em câmara ardente na capela mortuária, rumando, às 16 horas, o cortejo à igreja, onde foi celebrada missa em sufrágio do extinto pelo pároco, José A. Nunes, seu antigo aluno, concelebrando o contemporâneo e patrício, P.e José Belinquete, padre José Camões, de Águeda, e João Alves, reitor do Seminário de Santa Joana, Aveiro.

No final, P.e José Belinquete leu um e-mail de um grupo de alunos da antiga Escola do Magistério de Aveiro, que lembravam o professor exigente e sábio, o amigo, “um homem bom e de bem”. Por sua vez, a filha mais velha, Maria do Carmo, leu serenamente um belo e sentido soneto, intitulado “Epitáfio”, datado de Aveiro, 12/10/91. Além de muitos amigos, marcaram presença o presidente e vice-presidente da Câmara, Mário João Oliveira e Joaquim Santos, bem como o elenco da Junta local.

Homem servidor da igreja, passou por sua casa e esteve com a família, da parte da manhã o bispo emérito de Aveiro, D. António Marcelino, e pela capela mortuária, do lado da tarde, o bispo de Aveiro, D. António Francisco, e Mons. João Gonçalves Gaspar, que dedicaram palavras de reconhecimento pelo trabalho dedicado à diocese e pela obra de monta que nos deixa o homem de letras, Dr. António Capão, e fizeram um momento de oração, em comunhão com a família de demais pessoas presentes.

Armor Pires Mota