Noite luminosa

Na noite ditosa,

em segredo, que ninguém me via,

nem eu já via coisa,

sem outra luz e guia

mas a que no coração ardia.

Esta me guiava

mais certo que a luz do meio-dia

onde me esperava

quem eu bem sabia,

num lugar onde ninguém parecia.

S. João da Cruz

Sem apropriações indevidas, estas palavras do místico colocam-nos na rota da verdadeira expectativa que é o tempo do Advento: a noite pascal, por excelência a noite da salvação, é precedida, preparada e prefigurada por outras noites históricas, entre elas a do Natal, o princípio desse “escondimento” da Palavra eterna de Deus na fragilidade de uma criança pobre, anónima, indefesa.

Essa é a certeza: a estrela do nascimento guia-nos, “mais certo que a luz do meio-dia”, onde nós bem sabemos Quem nos espera. Importa que essa luz seja notificada, proclamada a toda a criatura, para que brilhe no coração de cada pessoa, pois só ela nos permite ver o mundo com outros olhos; com ela, ardente no coração, transfigura-se o rosto dos outros e das coisas; “onde ninguém parecia” é o resultado da nova criatura que o mistério do Natal inaugura.

“A Luz brilhou nas trevas” e a Luz é a Palavra incarnada. É para essa noite, que se tornou luminosa, que caminhamos. A Luz interior que nos guia é certeza de que serão vencidas todas as escuridões: do desânimo, das privações, da fraqueza espiritual, das discórdias, das desigualdades, das perseguições…

Um caminho doloroso de purificação, como a noite da criação, como a noite da ousadia pedia a Abraão, como a noite e a caminhada de libertação conduzida por Moisés, como essa noite suprema do Calvário. Um caminho certo de nova aurora, a esperança que cresce até à certeza dos novos céus e nova terra!

Todos nós somos os filhos da noite, que estas noites da história salvífica tornarão filhos da luz, redimidos pelo Amor. O caminho de renovação a que somos chamados despertará o desejo de invocar e desejar a noite do Encontro, inundada pela luz do Ressuscitado. Vale a pena fazê-lo com S. João da Cruz:

Ó noite que guiaste!

Ó noite mais amável que a alvorada!

Ó noite que juntaste

Amado com amada,

amada no Amado transformada!

Se a noite de Páscoa consuma a nossa configuração a Jesus Cristo, a noite do Presépio inicia essa configuração, porque “o Verbo se fez carne”, assumindo por inteiro a nossa natureza humana.