«Esquerdoidismo»

Questões Sociais Quando se estudar, a fundo, a história da política e das ideologias, do século XIX até hoje, talvez se chegue à conclusão de que, em Portugal, nunca teve grande expressão a esquerda, enquanto tal; prevaleceu, quase sempre, o «esquerdismo» caracterizado pela imposição de modelos económico-sociais, sem respeito pela democracia representativa nem pela correlação de forças. Os «esquerdistas» procuram impor as suas orientações, sem ponderarem a capacidade da realidade sociopolítica para as adoptar. O próprio Lenine viveu intensamente este problema, e caracterizou o «esquerdismo» como «doença infantil do comunismo».

Hoje em dia vive-se em Portugal uma forte aliança entre «esquerdistas» e pessoas de outros quadrantes ideológicos; tais pessoas, ao contrário dos «esquerdistas», não se afirmam «de esquerda» mas fazem claramente o jogo do «esquerdismo»; a palavra «esquerdoidismo» talvez traduza bem esta aliança. Suas características fundamentais são porventura as seguintes: contestação sistemática dos governos e da «troika»; não apresentação de propostas viáveis; recusa do diálogo e cooperação com outras forças; e uma tolerância estranha para com o sistema capitalista dominante. Não deixam de o contestar, evidentemente; mas nunca o atingem na realidade e até, com um infantilismo impressionante, dão a entender que basta a contestação dos governos e da «troika» para ele tombar; dão mesmo a entender que os governos, em especial o português, podem e devem derrubá-lo.

Nestas lutas inglórias nos vamos suicidando coletivamente. Não temos sido capazes de responder solidariamente à fortíssima interpelação atual. Não temos sabido, em especial, realizar o diálogo e a cooperação sistemáticos entre o governo e outros órgãos de soberania e autarquias locais, entre o Estado e a sociedade civil, entre os partidos do governo e os da oposição, entre empregadores e trabalhadores, entre intelectuais e lutadores/as pela subsistência…