Sou habitado

Poço de Jacob – 43 Nós acreditamos na presença de Jesus nos sacrários de nossas Igrejas. Ele está ali, dizia o Cura d’Ars. E sabemos que está em corpo, alma, sangue e divindade… e amando, orando, actuando silenciosamente no mundo, perpetuando a sua oferta ao Pai, por nós.

A Eucaristia é o cumprimento palpável da promessa de Jesus, segundo a qual ficaria connosco até ao fim dos tempos. Está ali. Até podes tocar-lhe. Muitos milagres eucarísticos, sobretudo o de Lanciano, em Itália, provam sua presença física. As análises feitas ao milagre de Lanciano dizem que a hóstia transformada em carne é, passados mais de 1300 anos, carne fresca, humana e tirada de um músculo do coração humano. Ir a Lanciano ajuda-nos a palpar este mistério, embora não precisemos de milagres para crer. Mas ajuda muito a dar graças. O mesmo efeito tem o Sudário de Turim, o véu de Oviedo ou o manto de Guadalupe, objectos que impressionam os meios científicos de hoje e de sempre.

Adorar o Senhor no sacrário envolve-nos em tal luz que, mesmo na aridez, a alma sente-se aconchegada e a força para lutar se revigora. Não se entende como temos tempo para tudo nos queixamos tanto e não damos, consciente e voluntariamente, tempo e lugar para Deus no nosso dia-a-dia, mas com qualidade. Por isso, alguém me disse há dias que morria de sede e a fonte estava ao virar da esquina, na sua igreja paroquial. Pena que o tenha descoberto tão tarde, já no entardecer da vida, dizia…

Também o mundo do clero e das religiosas anda vazio. Não enchemos os corações porque nos contentamos em ir buscar água ao poço, na missinha apressada, mas não experimentamos, no diálogo com Jesus, ali a beira do poço, o que significa “Dar-te-ei água viva”. Por isso, estamos mortos de sede.

Jesus está ali para dar-se sem medida. Não programes o teu tempo para lhe dizer isto ou aquilo. Deixemos que seja Ele a conduzir o tempo, ora com muito fervor e lindas ideias, ora no aniquilamento do sono teimoso ou da aridez confusa e dolorosa. Ele não te deixa sair vazio.

Como diziam os Pastorinhos, Ele, por vezes, quer que tu experimentes que trazes fogo no peito. No entanto, a Eucaristia é meio para uma realidade mais sublime ainda que nos faça antever o Céu. Da sua presença eucarística, que te possui quando o comungas, Ele quer que saboreies uma outra forma de presença, fundamentada na Bíblia e que chamamos inabitação. Ele habita em mim. Isabel de Trindade dizia: “O céu está em mim”. Não estamos sós. Somos portadores de Deus pela graça santificante. Ele está em ti de maneira actuante, silenciosa, amorosa, viva e eficaz. Tu és uma custódia ambulante. Ele possui-te. Foi Ele quem o disse: “Quem crê em Mim, meu Pai o amará. Viremos a Ele e faremos dele a nossa morada”.

A consciência dessa presença, do modo acima explicitado, é a essência de toda a oração. Ter consciência de Deus em mim é a verdadeira oração em espírito e verdade e pode ser contínua, até num arraial. Podes falar com o teu Deus e senti-lo dentro de ti até nas quatro paredes de uma exígua prisão, na cama do hospital, no trabalho da fábrica ou do campo, no convívio animado de um casamento ou de uma festa. E leva-te a entender que também está no teu irmão. E o que a ele fizeres é a Cristo, nele, que o fazes.

Da Eucaristia à inabitação é o caminho lógico que nos leva ao céu. Já aqui na terra.

P.e Vitor Espadilha