Parlamento dos Jovens 30 secundárias do distrito de Aveiro participam no Parlamento dos Jovens. Em Albergaria assistimos a um debate preparatório e falamos com um professor que incentiva os alunos a participar.
Um pouco por todo o país, em 363 escolas do ensino secundário (10.º, 11.º e 12.º anos), milhares de jovens esgrimem argumentos sobre qual a melhor forma de promover o emprego. Por outras palavras “políticas de emprego”. A pergunta “Os jovens e o emprego: que futuro?” foi lançada pela Assembleia da República, que desde há anos vem promovendo o Parlamento dos Jovens. E será precisamente no Parlamento, em Lisboa, que nos dias 27 e 28 de maio, os jovens hão de protagonizar o grande debate. Para já, há debates nas escolas, e a seguir a nível distrital. No caso de Aveiro, a “assembleia” com 60 “deputados” saídos das 30 escolas do distrito que participam nesta iniciativa reunirá no dia 12 de março. Só então serão escolhidos os representantes de Aveiro em Lisboa.
A Secundária de Albergaria-a-Velha é uma das que participa no Parlamento do Jovens. O professor Luís Silva, com colegas de Economia, Filosofia e História, coordena localmente esta iniciativa que retrata o funcionamento do sistema democrático português. Para este professor de EMRC (Educação Moral e Religiosa Católica), habitual colaborador do “Correio do Vouga”, é importante envolver os alunos nos espaços que tomam “decisões que a todos dizem respeito”. “Se queremos que estejam a liderar as decisões pessoas capazes de mobilizar-se pelos valores maiores (…) temos de envolver (…) os nossos próprios alunos”, afirma (ver entrevista ao fundo). Para ajudar os alunos a prepararem os seus argumentos, promoveu-se na Escola Secundária de Albergaria um debate sobre emprego/desemprego com líderes das juventudes partidárias. Aconteceu na tarde de 9 de janeiro.
Diogo, da Juventude Comunista Portuguesa (JCP), defendeu que é necessário “alterar o rumo político”, tornando-o “mais patriótico e de esquerda”. Segundo o líder juvenil, as políticas atuais são um “puro engano” porque provocam um desmantelamento da economia e levar à perda de direitos sociais. Quanto à Constituição, da qual se diz que é necessário rever, considerou que é “uma conquista do povo português”, pelo que está bem como está.
Vera, da Juventude Socialista (JS), reconheceu que “os cidadãos e ainda mais os jovens estão desacreditados da política”, mas congratulou-se pela presença dos estudantes de Albergaria. Sobre o tema em debate, o emprego, adiantou que “sem crescimento económico não há postos de trabalho”, pelo que é necessário promover o crescimento e não a austeridade. Por outro lado, afirmou que Portugal é dos países onde se trabalha mais por semana, mas trata-se de trabalho que “traduz pouco valor acrescentado” (17 euros em Portugal por hora contra os 37 da média europeia). Considerou que não há licenciados a mais e que o direito à educação deve ser garantido pelo Estado.
Diplomado não quer dizer
competente
José Regalado, da Juventude Social Democrata (JSD), notando que não queria “defender o governo”, reconheceu que o desemprego duplicou e, entre os jovens, “mais do que duplicou”. Disse que está a acontecer uma “mudança estrutural”, em que a economia deixa de estar baseada na “mão-de-obra intensiva – muitos trabalhadores na fábrica – para estar baseada na produção de bens que requerem menos mão-de-obra, mas mais “incorporação tecnológica”, mais conhecimento e formação dos empregados. Neste sentido, apelou à educação, que é “espaço de transformação” e sublinhou que “diplomado não quer dizer competente”. Por isso, defendeu o ensino profissional e os estágios obrigatórios nas empresas durante as pausas escolares. Disse que “todas as profissões são nobres e dignas” e convidou os jovens a, quando pensam num curso, “largarem o estatuto e apostarem nas competências”.
José Lello, da Juventude Centrista (JC), ironizou que “desde 1143 [fundação de Portugal] o país está em dificuldade, sempre a dever dinheiro a alguém”, mas defendeu que “é possível superar a crise” começando pelo desenvolvimento de cada um. “Com trabalho consegue-se tudo”, disse, “e o importante é chegar ao fim do dia com um sentimento de valorização, de que se fez algo”. Como exemplo de que há uma mudança em curso, muito defendida pelo partido a que pertence (CDS/PP), adiantou que nos últimos tempos tem havido por mês cerca de 270 pedidos de jovens que querem tornar-se agricultores.
No final da sessão, Luís Silva manifestou a este jornal agrado pela prontidão com que as juventudes partidárias acolherem o convite para o debate e o respeito com que os participantes intervieram. “Estou convencido de que se a política fosse feita com base em ideias e projetos e não com base na discussão de pessoas ou das suas intenções, muitos mais portugueses sentiriam como a política é uma condição de todos os cidadãos numa sociedade e não um exercício de poucos”, afirmou o professor. A política diz respeito a todos. É para perceber isso e fazer surgir pessoas que a ela se dediquem com sólidos valores morais que este Parlamento existe e a EMRC se empenha na sua promoção.
J.P.F.
“A política deve ser participada por todos e movida por valores éticos”
Correio do Vouga – O que pretende o Parlamento dos Jovens?
Luís Silva – O grande objetivo é sensibilizar os alunos para a importância do envolvimento nas decisões que a todos dizem respeito. Este jogo prepara os alunos para o envolvimento cívico e político.
É importante levar os alunos de EMRC a participar num projeto destes?
A participação civil e política está dentro dos objetivos da própria disciplina de EMRC, que integra entre as várias unidades letivas uma dedicada à «Política, ética e religião». É oportuno envolver neste jogo os alunos que a frequentam, porque lhe é proporcionada a oportunidade de discutir matérias do seu interesse, ouvindo a sua opinião, que podem defender com recurso a argumentos que considerem pertinentes.
Ao envolver os meus alunos de EMRC neste projeto tenho a intenção de sublinhar que, como toda a ação que é humana, a política é lugar da ética e não uma atividade neutra e inóqua. As decisões políticas são, também, decisões éticas, expressam critérios e hierarquias de valores. Ora, se queremos que estejam a liderar as decisões pessoas capazes de mobilizar-se pelos valores maiores, não podemos deixar de discutir as ideias políticas a esta luz, tendo, por isso, de envolver neste discernimento os nossos próprios alunos.
A atividade política é mal vista?
Na verdade, é preciso conhecer para compreender. Muitos portugueses não querem ouvir falar do discurso político porque parece-lhes um «jogo» de que não conhecem as regras. O que é isso de «direita» e «esquerda»? O que será ser «liberal», «socialista» ou «marxista»? Quem é que defende a liberdade individual e quem é que defende a concentração no Estado? Ora, como não entendem as regras do jogo não querem perder tempo com isso. Enquanto as decisões continuam a ter de ser tomadas a seu arrepio.
O que este projeto pretende é, precisamente, contrariar essa atitude e ver que a política deve ser participada por todos e movida por valores éticos, ainda que, nas suas escolhas concretas, o respeito por esses valores possa ser conseguido por vias diversas.
Como vivem os jovens esta experiência do Parlamento?
O interesse dos jovens pelo programa varia com a qualidade e pertinência do tema. Por exemplo, no ano passado, o tema «redes sociais» suscitou pouco interesse. Neste ano, a pertinência do assunto fez com que no nosso agrupamento se formassem, voluntariamente, cinco listas, que apresentam medidas muito interessantes. Os alunos revelam preocupar-se com o seu futuro e querer participar nas decisões que se repercutem nas vidas de todos.
