«Vai um cafezinho?»

A Árvore de Zaqueu DOMINGO XVI do tempo comum – Ano C

A cena do Evangelho é das mais conhecidas e discutidas: Marta é quem se afadiga por preparar a Jesus uma boa refeição e estadia; Maria, sua irmã, passa todo o tempo sentada ao pé de Jesus – e Jesus toma o partido de quem “não faz nada”!

Ao menos quer Abraão quer Sara puseram mãos ao trabalho para receberem três visitas, pelos vistos de boa aparência, embora um tanto misteriosos. A hospitalidade era um dever social e religioso de primeira importância nas civilizações orientais, cumprindo um ritual que facilmente nos parecerá exagerado. Porém, ainda hoje é uma forma de sobrevivência em lugares inóspitos ou de baixa densidade populacional, e também faz parte de uma agradável tradição em várias das nossas regiões.

É certo que Abraão, Sara, Marta e Maria atravessavam momentos de uma intensa experiência religiosa: os primeiros, como figuras centrais de uma estranha aliança de Deus com os homens; as duas irmãs, como testemunhas chegadas do momento mais alto dessa aliança – a presença de Jesus Cristo. Só isso bastaria para que estivessem mais atentas aos acontecimentos à sua volta, e particularmente ao significado de todas as situações de interacção humana. Com efeito, quanto mais rica é a vida espiritual de uma pessoa, mais riqueza esta descobre em todas as outras pessoas, e mais profundamente descobre o para quê desta vida.

Os nossos quatro protagonistas, cada um a seu modo, manifestam a alegria de acolher os outros, mesmo os estranhos. Os nossos maiores amigos, sobretudo se feitos na idade adulta, não começaram por pertencer ao mundo dos “estranhos”? Se não nos abrimos aos outros, transformamos os outros em grades da nossa mesquinha prisão.

Há quem diga que os portugueses passam demasiado tempo em conversa ou jogos de café. É grande a tentação para fugir da loucura do nosso trabalho ou para gastar dinheiro nessa e noutras descompressões – quando não é resultado de negação ao trabalho (às vezes reforçada por um subsídio pouco criterioso…).

Mas quem nada faz, nem um café sabe tomar: apenas se atasca numa mesa suja. Um bom café tem que ser um encontro de simpatia e boa disposição; tem que ser uma pausa mais barata e mais eficaz do que o mais afamado ansiolítico ou antidepressivo; tem que ser um momento tão simples como a amizade mais sincera que dele se pode alimentar. (Quando certos “patrões” ou “afins” não vêm o “cafezinho” com bons olhos, não será porque temem uma espécie de “conversas subversivas”… que até podem ser origem de mais originais e mais justos empreendimentos?) Aliás, à mesa de café, partilha-se o desgosto de uma vida ou o tesouro de um amigo possível – e descobre-se uma mensagem de Deus.

Jesus tomou o partido de Maria. Há quem veja nisto a defesa do valor da contemplação; ou a condenação do trabalho frenético, alienante como a droga, que impede de pensar a sério e tomar decisões honestas. O evangelho, porém, tem outro alcance: chama a atenção para que uma pessoa equilibrada não trabalha como um escravo: gosta sim de manifestar o seu pensamento, decisões e ideais; e dedica alguns momentos do dia para poder olhar a vida com a perspectiva mais perfeita e para melhorar os seus conhecimentos. E se recebe alguém, fá-lo com a alegria da amizade e do amor, e não se preocupa com recepções espaventosas e fatigantes – quantas vezes inibidoras de amizades a sério. Por outro lado, não será que Jesus tentou explorar os “ciúmes” de Marta, como quem diz: – E se te deixasses das tuas manias de imprescindível e persuadisses a tua irmã a trocar contigo?

A situação de Marta e Maria não é semelhante à de Sara e Abraão, que viveram em tempos e condições de quase dois mil anos antes de Cristo. Os hóspedes de Abraão eram gente importante – Jesus era um simples amigo. Bastaria uma simples bebida e alguns bolinhos para acompanharem uma tarde de boa e profunda amizade… que elimina o stress e ajuda a planificar a vida com olhos saudáveis.

Manuel Alte da Veiga