Igreja deve acolher os jovens “sem preconceitos”

Organismo do Vaticano diz que a Igreja deve “estar disponível” e ter recursos para os jovens.

As comunidades católicas devem “acolher de braços abertos os jovens tais como são, sem preconceitos e juízos moralistas”, sublinham as conclusões da assembleia plenária do Conselho Pontifício da Cultura, que decorreu em Roma de 6 a 9 de fevereiro.

O documento publicado no sítio eletrónico da instituição da Cúria da Santa Sé oferece mais de uma dezena de “propostas” para a Igreja, depois de sintetizar os principais traços que caracterizam as “culturas juvenis emergentes”, tema principal do encontro.

As instituições eclesiais são convidadas a “ser lugar de escuta para partilhar a experiência de dificuldade real, para gerar simpatia compreensiva pela complexidade das situações”, indica o texto assinado pelo bispo português D. Carlos Azevedo, delegado do Conselho Pontifício.

Para a instituição liderada pelo cardeal italiano D. Gianfranco Ravasi, a Igreja tem de se assumir como “espaço de confronto e diálogo sobre as razões do viver, oferecendo como meta a ‘vida em abundância’”, expressão atribuída a Jesus na Bíblia.

Os participantes no encontro, entre os quais o diretor do Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura, padre José Tolentino Mendonça, sublinham que as comunidades devem ser “companhia na peregrinação afetiva, cultural, espiritual e religiosa das novas gerações”.

A presença católica terá de estender-se às universidades, redes, bairros e a todos os âmbitos onde a juventude se encontra, com o objetivo de a “acompanhar na passagem à idade adulta”, e não na perpetuação da idade juvenil.

Os cristãos, continua o texto, devem “testemunhar, com coragem e alegria, a presença de Deus na vida simples, no quotidiano”, e ao mesmo tempo “dar confiança e horizontes de futuro aos jovens, diante da profunda incerteza perante uma sociedade cega e surda às suas necessidades”.

Além de oferecerem “palavras e sobretudo narrativas capazes de ‘reencantar’ o mundo”, como “reais alternativas de esperança” ao “mercado”, os católicos são convidados a devolver à juventude “a alegria e o gosto da vida”.

O Conselho Pontifício da Cultura frisa a importância de a Igreja “estar disponível” e ter recursos “para sustentar o caminho interior” e “ser referência espiritual que permita o confronto com o drama da condição humana e os seus limites, como também para abrir de par em par as portas da fé a partir da contemplação, do silêncio, da oração”.

“Acolher o saber e a competência dos jovens, o seu contributo profético, para o bem do mundo, despojados do supérfluo, abertos ao espanto sereno pela vida, conscientes de um bem comum global e ecológico, sem exclusões e formas de marginalização”, constitui também uma prioridade.

As conclusões terminam com a necessidade oferecer aos jovens “a integração em comunidade através de uma profunda relação fraterna e geradora de uma nova cultura, de um novo estilo de vida”.

Contradições dos jovens?

“A cultura juvenil, o fenómeno, diria, social juvenil, não é fácil de decifrar. Porque tem dentro de si toda uma série de contradições. São, por exemplo, por um lado, fortemente individualistas, porém, por outro, seguem a massa, as modas da massa. São, por um lado, fortemente desejosos de não ter nenhum vínculo – por exemplo, do ponto de vista ético – e, ao mesmo, têm um forte sentido da amizade, sentem fortemente a violação da relação. Por um lado, estão prontos, por exemplo, a celebrar a liberdade absoluta e, por outro, seguem muitos estereótipos, começando pelo modo de vestir-se. São um fenômeno muito complexo. E têm linguagens completamente novas: quero recordar uma delas, à qual gostaria de dar relevo particular, que é a linguagem da música. A música deles tornou-se o maior consumo em termos absolutos de forma cultural musical. Justamente por todas essas razões, penso que será indispensável que nós, adultos, nós, gerações precedentes, inclusive nós, pastores, esforcemos para não colocá-los diante de uma espécie de microscópio, mas entrar no nível deles e começar a sentir, um pouco, como é a batida da mente e do coração dos jovens”.

Grianfranco Ravasi, à Rádio Vaticano, no início do encontro