Poço de Jacob – 144 No primeiro Domingo da Quaresma a nossa atenção fixou-se nas chamadas tentações de Cristo. Tendo em conta que a tentação consiste, essencialmente, em vermos como algo bom o que é mal e mau em si mesmo, custa a entender que Jesus pudesse não ter discernimento, ainda que momentâneo, da distinção entre o certo e o errado ou o mal e o bom, sendo Ele Deus. Mas, como Deus não pode nascer e Jesus tem mãe, na sua humanidade, e não pode morrer, e morreu na Cruz, ainda que tenha ressuscitado, não é difícil aceitar as tentações nele, visto que Se fez igual a nós em tudo, menos no pecado.
Pelo que significa a palavra diabo, na narração das tentações tanto podemos falar de um ser pessoal, angélico, revoltoso e condenado, de nome Lúcifer ou Satanás, como dos diabos que trazemos dentro, que são as maldades e desorientações da nossa mente e do nosso coração, muitas vezes inclinados para o mal, como já se queixava S. Paulo numa das suas cartas. O diabo pode ser o meu desejo de ter e de poder, bem sublinhados nas três tentações de Cristo.
Jesus, ao responder com o que “está escrito”, coloca o ser sobre o ter e o poder, à luz da palavra e da vontade de Deus, impressos nos nossos lábios e no nosso coração, ou na consciência, que é o mesmo. Mas, reduzir o demónio à nossa fraqueza e contingência humana, como realmente acontece, pode fazer-nos correr o risco de dizer que Satanás não existe e que essa coisa de haver céu ou inferno são ideias e não realidades, como tem acontecido em muitos setores da Igreja. Claro que também há muito fanatismo por aí que reduz tudo à ação do mal, reduzindo Deus à impotência diante do demónio, o qual, se existe, é porque Deus o conserva no ser, o que não deixa de ser um mistério dos grandes.
Li e reli vários livros do exorcista Gabriel Amorth, que se vendem em todas as livrarias do país. Praticamente todos dizem o mesmo com matizes diferentes. Mas o facto de ele recomendar a leitura dos mesmos a padres e bispos não deixa de interpelar a hierarquia da Igreja, para algo que se tende a ignorar, pelo motivo de haver também muita farsa nessa matéria, no mundo do esoterismo e da feitiçaria, que o nosso povo frequenta em paralelo com a ida à Missa.
Muita gente que quer falar comigo vem para que o padre “faça trabalhos” depois de saltitar entre cartomantes e bruxaria, a ver o que pega. O respeito por todos e pelas suas ideias é muito necessário para a Igreja. A capacidade de discernir o que é psicológico e o que é satânico exige um dom que nem todos têm, pois aí não pode funcionar o subjetivo. Negar simplesmente tudo, reduzindo ao foro psicológico, é a tentação grande, produzida pelo sincretismo do nosso povo que vive em ignorância. Também entendo que os problemas levam as pessoas desesperadas a bater a todas as portas, e que há muita coisa que não tem explicação nem imediata nem remota.
Há um campo que a Igreja pode e deve atender que é o reservado à ação de Satanás no mundo e nas almas. Nas aparições de Fátima e Lurdes essas realidades também aparecem. A Bíblia fala delas e não só de modo simbólico, como acontece com algumas narrações. O Diabo Lúcifer existe, e a sua grande vitória está em levar os homens do nosso tempo e os da Igreja, sobretudo, padres e freiras e cristãos ditos entendidos e formados, a negar a sua existência e ação no mundo. Como muitos também negam Deus. Não é fácil o discernimento. Muitos de nós, sacerdotes, não temos conhecimentos quanto ao modo de atuar nesta matéria. Mas recomendo que leiam Gabriel Amorth. A leitura de seus livros elucida bastante. Nessa matéria é dos melhores materiais que a Igreja nos proporciona, sendo o P.e Gabriel exorcista do Vaticano.
Se pedimos a Deus que não nos deixe cair em tentação vinda dos muitos diabos que trazemos dentro por causa das nossas más inclinações, pedimos aos anjos que nos defendam da ação do maligno que, como dizia o Papa Leão XIII, “anda pelo mundo para a perdição das almas”.
Vitor Espadilha
