Órgão de tubos emudecido

A propósito do órgão de tubos da Sé, em construção (1) JOÃO GAMBOA

Ninguém acende uma luz debaixo da mesa ou no canto da sala, junto ao chão. Não iluminaria os convivas e não pouparia energia aos donos da casa se esse fosse o objetivo; antes roubaria brilho à festa, ao mesmo tempo que era sinal de rematada insensatez.

Também não escreve o poeta o seu poema para ficar olvidado na gaveta, a vida inteira; nem o pintor joga e combina as cores no seu quadro para o deixar à mercê do pó e da humidade, no fundo da oficina. Também o compositor não escreve a sinfonia, o concerto ou a canção, para ficar embalsamada e morta, florida embora, na partitura, mas para dela ser erguida pela arte dos músicos e tornada deleite para os melómanos. Do mesmo modo, a obra dramática só vale a pena ter sido escrita quando é recriada pelos atores sobre o palco e assim diverte, sugere, ensina, critica, comove.

Mas aquele órgão de tubos, naquele templo belo e luminoso, é candelabro que não ajuda à festa, porque está apagado e não há quem o acenda; é poema que não encanta nem comove, porque ninguém o diz; é tela que a ninguém enche os olhos, porque está coberta de teias de aranha, virada para a parede; é partitura de tocata, tento ou fuga que não se torna “magnificat” nem “alleluia”, porque nenhum organista a arranca ao olvido e a faz ressoar jubilosamente; é obra de teatro que nenhum público aplaudirá, porque não há grupo que a leve à cena.

Quem se lembraria de cirurgicamente roubar ao rouxinol a possibilidade de cantar tão melodiosamente nas balsas e salgueirais? Ou quem se atreveria a cortar as asas à águia para não subir às alturas e voar magnificamente no azul, acima das montanhas? Ou, ainda, quem poluiria, por desleixo, o riacho, matando toda a vida que nele cantasse um hino ao Criador e sujando a limpidez da sua corrente? Ou quem castraria o pavão para que não ostentasse e não seduzisse a fêmea com o leque aberto e deslumbrante da sua plumagem magnífica?

Ninguém faria nada disto e fazê-lo seria tomado, provavelmente, por um ato inqualificável, um ato de loucura, um ato criminoso. Ou não?!

Mas aquele órgão de tubos, naquela igreja acolhedora, é rouxinol silenciado que a ninguém deleita os ouvidos e o coração com o seu cantar; é águia de asas cortadas que não nos leva até à morada de Deus, na montanha misteriosa azul-violácea; é rio enegrecido e sem vida que não proclama as maravilhas da criação nem oferece ao viajante cansado a frescura da sua água cristalina para deliciar os olhos e matar a sede; é beleza escondida que não se vê e não aproveita a ninguém, impedida de facilitar a resposta dos homens à mensagem e à sedução de Deus…

Furtar uma obra de arte à fruição dos homens é um ato grave. Impedir um ser vivo de o ser em toda a sua plenitude relativa e de exercer a função para que foi criado, é um crime grave de leso-Criador.

Aquele órgão de tubos sem voz retalha-me a alma. Porque está esvaziado do seu ministério. Foi construído para ajudar a assembleia dos crentes a louvar o seu Senhor, e está ali desprezado, esquecido, morto. Foi feito para ajudar a elevar até Deus os sentimentos dos homens ávidos do Bem e do Belo, e jaz ali inútil e triste.

Aquele órgão, de tubos emudecidos corta-me o coração e faz-me chorar. É como Sexta-feira da Paixão vista sem a luz da Fé. Ou como uma boda de casamento comida em silêncio e sem rir.

Aquele órgão de tubos não canta, não aplaude, não implora, não pede perdão, não contempla, não pacifica, não exorta, não rejubila, não louva, não aclama, não exalta, não celebra.

“Aquele órgão de tubos” é o velho órgão de tubos da Sé, colocado sobre as portas que dão para a sacristia.

(Adaptação de texto publicado em O Aveiro, Ano 3, N.º 108, 16 Setembro 1993, p. 3, e republicado em “Ecos & Miragens, Crónicas”, Aveiro, 2009, pp. 107-109)