Igreja quer criar fundo para judar os mais necessitados

A Igreja Católica propõe a criação de um fundo comum para apoio à população mais necessitada. D. Carlos Azevedo convida os políticos cristãos a dar 20 por cento do ordenado

O Conselho Consultivo da Pastoral Social, da Igreja Católica, propôs na quinta-feira da semana passada a criação de um novo “fundo” conjunto para reunir verbas destinadas a apoiar a população mais necessitada.

Em conferência de imprensa, D. Carlos Azevedo, presidente da Comissão Episcopal da Pastoral Social, revelou que este “fundo novo” da Igreja se destina a promover “mecenato, a generosidade das pessoas, para atender aos apelos das dioceses, das paróquias”.

O Bispo auxiliar de Lisboa deixou votos de que “cada paróquia, congregação, movimento inclua no seu plano pastoral a atenção às pessoas mais afectadas pela crise, denuncie injustiças locais, exija empenhamento político da administração pública, motive a comunidade para a partilha dos bens”.

“A crise é tão grave que não poderemos superá-la uns contra os outros: empresários contra os sindicatos, sindicatos contra patrões, governo contra a oposição, oposição contra o governo. A vontade de reagir tem de ser concorde, superando divisões e concertando estratégias, com propostas alternativas credíveis”, indicou D. Carlos Azevedo.

Para o Bispo auxiliar de Lisboa, os actuais modelos de “vida e de consumo, de produção e de distribuição” não são sustentáveis: “Repartem mal, carregam sobre outros o pior do esforço, excluem grupos, sublinham uma democracia de carga corporativa e opaca”.

Em declarações à SIC Notícias, D. Carlos Azevedo deixou uma proposta que tem feito correr muita tinta: “Era muito bom que os políticos cristãos dissessem: «Eu cedo do meu ordenado 20 por cento para um fundo social». Isso era um testemunho concreto. É preciso decisões novas, alguma coisa que diga às pessoas que é possível”.

A proposta provocou diversas reacções (ver destaque), geralmente discordantes, mesmo de políticos cristãos. Na quarta-feira anterior, em entrevista à Rádio Renascença, D. Carlos Azevedo afirmara: “Parece que ninguém cuida dos reais problemas das pessoas e esta vida assim não tem graça. É preciso que aqueles que são chamados a olhar para as situações desenvolvam uma crítica frontal, primeiro de todo o sistema financeiro que nos levou a esta crise e haja mesmo intervenção e intervenção forte. Basta de gente que ganha num dia aquilo que outros ganham num ano. Tem de haver alguém que ponha cobro a isto e com coragem”.

O Bispo da Guarda, D. Manuel Felício, por seu turno, preocupado com o anunciado encerramento da Delphi, que chegou a ser a maior empregadora do distrito, já disse estar disposto a contribuir para o fundo de coesão social ao mesmo tempo que aconselhou os responsáveis políticos e técnicos a saírem dos seus gabinetes para ver no terreno as reais dificuldades das pessoas.

J.P.F. com agências

Reacções dos políticos à proposta

de dar 20 por cento do ordenado

“Quando participo em acções de caridade nunca faço propaganda disso, é aliás um principio evangélico, que o sr. bispo conhece, quando há acções de caridade, nem a nossa mão esquerda deve saber o que faz a mão direita, não acho que seja assunto para propaganda e popularidade fácil”.

Pedro Silva Pereira, ministro da Presidência do Conselho Ministros

“Cada um contribui conforme a sua consciência entende e conforme as suas possibilidades para tentar ajudar a resolver os problemas da sociedade portuguesa”.

Vieira da Silva, ministro da Economia

“[O político] é um cidadão como outro qualquer e fará o que bem entender, de acordo com a sua responsabilidade e consciência social”.

Miguel Macedo, líder parlamentar do PSD

“Depende de cada um (…). [Preferia ver da] hierarquia católica [uma proposta]forte em matéria de imposto sobre as grandes fortunas ou de crítica do aumento do IVA para produtos de primeira necessidade”.

José Manuel Pureza, líder parlamentar do BE

Segundo o “Jornal de Notícias”, Pedro Mota Soares, do CDS, lembrou a proposta do seu partido para os políticos abdicarem do 13.º mês, enquanto Bernardino Soares, do PCP, recusa “alinhar” numa “campanha” que desvia a atenção do aumento de impostos.