Poço de Jacob – 68 Quando uma mulher engravida, ela vai observando as mudanças no seu corpo, que reage conforme o feto se vai desenvolvendo até o dia em que dá a luz. Os movimentos da criança no seu ventre. Os pontapés que fazem vibrar os pais de alegria. As ecografias que permitem dizer olá ao pequenino que existe desde o dia em que foi concebido. As mudanças são interiores também, não só biológicas ou de bem-estar, mas psicológicas. Assumir a maternidade é algo que se vai fazendo progressivamente. Esse noviciado de maternidade, ou diaconado da maternidade, não é por acaso que dura nove meses. É um tempo privilegiado que leva a mulher ao voto perpétuo de educar um filho para o céu, tendo de o ver atravessar os túneis deste mundo. As suas dores de parto não terminam nunca.
Também as pessoas que sofrem de uma doença, como o cancro, vão vendo mudanças interiores e exteriores na sua vida, nos seus sonhos, no seu corpo, como retiro que os prepara para o encontro definitivo com o Senhor. Depois da operação que teve êxito – lembro-me de ver no meu pai – desconfia-se sempre de uma dor inesperada ou de um mal-estar. O meu pai interrogava-se sobre o que se passava no seu corpo. Tudo mudava, incluindo o modo de ver a vida e, pouco a pouco, até o modo de aceitar a morte certa, que se vai tornando suave, muitas vezes por causa da consolação da fé. Isto para que caíamos na conta de uma outra realidade tão sublime e palpável como as duas anteriores: a nossa vida interior.
A vida interior tem sintomas que se repercutem também no físico. A vida interior é o convívio com o hóspede que trazemos dentro, pela graça santificante. Não é um bebé que se espera, mas é o Senhor que nos foi dado e faz de nós a sua morada, se lhe abrirmos o coração. Ele existe em nós de modo silencioso. Actua amorosa e eficazmente. Actua progressiva e lentamente em nós. Ele ama-se em nós e ama-nos em nós. Reza em nós ao Pai e o mistério da Trindade acontece dentro de nós.
Quando uma pessoa descobre estes movimentos interiores e estas reacções interiores de uma vida – a vida – que trazemos dentro, tudo muda e tudo se cura. Somos habitados, dizia Isabel da Trindade. Toda a vida do cristão e a liturgia, eucarística, inclusive, orienta-se para a vivência da inabitação da Trindade em nós.
Rezar, no sentido mais pleno da palavra, é o tomar consciência desta presença em nós. O nosso comportamento moral implica o cuidado para não ofender essa presença. O nosso relacionamento com os demais vai na linha de saber que Ele também está presente nos outros. O que fazemos aos outros é a Ele que o fazemos. Por isso, temos de nos educar em contemplar serenamente o Senhor que está dentro do nosso coração. Amá-lo em nós. Até o cuidado do corpo, que não é para a imoralidade, como diz S. Paulo, implica a consciência dessa presença. A eternidade será, para nós, somente, a continuidade dessa vida de intimidade, substituindo a fé pela visão e a esperança pela posse de Deus, permanecendo no Amor que levou Jesus a dizer, um dia: “Permanecei em mim e Eu permanecerei em vós”.
P. Vitor Espadilha
