Protagonista de uma dura batalha

No Dia Internacional da Mulher (8 de Março), homenagem a Rosário Sarabando, que durante longos anos sofreu de esclerose lateral amiotrófica. Faleceu na madrugada 27 de Fevereiro, poucas horas depois do lançamento da quarta edição do seu livro “Quero ver o meu filho crescer… a afirmação da liberdade interior”.

No decorrer da história, passada e presente, sempre existiram mulheres que não têm tido a pretensão de caminhar à frente dos homens ou a falsa modéstia de ir atrás deles, mas sim de estar a seu lado para juntos se darem as mãos e as vontades, com audácia, alegria e sofrimento, na construção de um mundo melhor; também têm existido e continuam a existir mulheres que, não se deixando derrotar pelas dificuldades da vida ou do infortúnio da doença, são testemunhas modelares em superar as circunstâncias difíceis, quase sempre no silêncio ou na humildade. Perante tais exemplos de coragem e de martírio, não podemos ficar indiferentes. Se isto assim acontecesse, haveria razão para sermos acusados de injustiça… ou ao menos de distracção e de negligência.

No Dia Internacional da Mulher, recordo em evocação sentida Rosário Sarabando, ilhavense nascida em 15 de Dezembro de 1962, que, durante longos anos de tão atroz enfermidade mas sempre com vontade de viver sem desânimos, revelou-nos com muita simplicidade e sem qualquer presunção os detalhes da vida de uma esposa, mãe e dona de casa, mesclada de lutas interiores e de interrogações íntimas, mas cheia de fé em Deus, de boa disposição e de extraordinário amor aos outros, particularmente ao seu marido e ao seu filho.

Na tarde do passado dia 26 de Fevereiro, participei na justíssima homenagem que Ílhavo lhe prestou, aquando do lançamento da quarta edição do seu livro “Quero ver o meu filho crescer… a afirmação da liberdade interior”. É um livro que, se relata a progressão da sua doença, fala-nos sobretudo da importância das coisas simples, mas cheias de significado. Foi uma festa repleta de gratidão afectiva e de emoção comovente, vivida por muitas dezenas de pessoas no salão nobre do Museu Marítimo. Nesses momentos de reconhecimento e de júbilo, ninguém suspeitava que ela iria falecer na madrugada seguinte, vítima de esclerose lateral amiotrófica, de que sofria desde 1999 – ano em que, no dia 20 de Junho, nasceu o seu filhinho João Paulo, há muito desejado.

Fisicamente limitada, Rosário Sarabando foi protagonista de uma dura batalha contra a doença que enfrentou, vivendo mais tempo do que se previa. Este percurso foi-lhe bastante penoso, mas foi marcado pela coragem em manter-se viva, para ver o Joãozito crescer… com o carinho desvelado do seu marido Paulo Manuel Gonçalves. Demonstrou que todo o homem e toda a mulher podem ser verdadeiramente felizes, mesmo que se abatam sobre eles as borrascas calamitosas. Como disse a Madre Teresa de Calcutá, «o importante não é o que se dá, mas o amor com que se dá.» Fragilizada, jamais deixou que a revolta a dominasse, não infernizando a sua vida nem a dos que a rodeavam; optou pela luta diária com fé e amor a Deus, porque – escreveu ela – «o meu filho e o meu marido merecem que assim o faça.»

Impossibilitada de falar, por meio de um computador especial embora com dificuldade, fazia-se comunicar em mensagens escritas, orientava as tarefas domésticas e até indicava a ementa das refeições. Recordo algumas das suas palavras: – «Sinto-me abençoada! Sinto-me rodeada de amor e carinho… pelos meus dois amores e pelos meus grandes amigos! Apesar de tudo, sou muitíssimo feliz»; por isso, «enquanto eu puder estar mais um dia na vida do meu filho, vale a pena.» Depois de debelar uma crise, escreveu: – «Quando finalmente venci, tudo voltou a ser como dantes, com duas diferenças: – mais força e mais vontade de viver.» Outra vez confidenciou: – «Eu queria levantar-me e não conseguia… até que uma oração e o oitavo aniversário do meu filhote me ajudaram a seguir em frente…» E ao Padre João Alves disse em Maio de 2007: – «Quero receber o sacramento da Santa Unção; quero levantar-me desta angústia e esperar melhores dias… mas a ideia de partir não me abandona!» Em palavras repletas da experiência de uma mãe, que dirigiu ao filho, deixou estas recomendações entre várias: – «Meu querido, quando a vida te der mil razões para chorar, mostra-lhe que tens mil e uma razões para sorrir. […] Respeita para seres respeitado, ouve para seres ouvido, cumpre a tua palavra que tem de ser sagrada. […] Para receberes, terás que dar; dá o que de melhor existir em ti – amor, amizade, carinho, solidariedade, tudo o que achares que podes dar.»

Rosário Sarabando: – O teu testemunho de alegria irradiante, de esperança contumaz, de força voluntariosa e de amor sólido vai perdurar na memória do teu marido, do teu filho e de quem te conheceu, como uma luz no seu caminho. Bem hajas, pela mensagem sublime da tua vida, que continuará a marcar e a fortalecer as nossas vidas!… Como afirmaste, um dia estaremos na grande Casa de Deus… Essa Casa onde todos nos iremos encontrar, porque a morte não é um adeus, mas apenas uma separação momentânea.