O que diz… “O que comunica a comunicação social? E a Igreja sabe comunicar?” À volta destas questões António Marujo, jornalista do diário “Público” dedicado principalmente à informação de carácter religioso, comentou o panorama mediático actual e abordou a relação dos homens e instituições da Igreja com a comunicação social. Apresentou e moderou o encontro o P.e Licínio Cardoso, que recordou o tempo em que ambos colaboravam na pastoral juvenil da Diocese de Aveiro. A sessão decorreu no CUFC, na noite de 2 de Fevereiro. Resumo das ideias principais por Jorge Pires Ferreira.
Limitação dos meios actuais
Os meios de comunicação social [simplesmente meios ou “media”] são formas de exercer liberdade. Neles, hoje, é fácil criticar os políticos, que já não têm muito poder, mas é difícil criticar as grandes empresas, os grandes grupos financeiros, as bolsas que decidem o nosso quotidiano. A crise fez os políticos dizerem que é preciso regular o sistema financeiro mas continuam a mandar as agências de “rating”, os grandes banqueiros sem rosto, que querem maximizar o lucro, as multinacionais, quem decide os empréstimos e o preço do petróleo – pessoas que não foram escolhidas para governar.
O jornalismo está preso pelos grandes negócios. Em Portugal, aos agentes económicos junta-se o dirigismo desportivo. Não se levanta a voz contra eles. Há uma menor capacidade critica em relação a quem manda e não é político.
Novos intermediários
Por outro lado, surgem novos intermediários, como os blogues e redes sociais, que põem a identidade do jornalismo em causa. As redacções procuram um novo figurino. Redefinem-se os territórios na comunicação social, embora a missão continue a ser a mesma: contar as coisas interessantes da vida das pessoas, das sociedades, dos povos e do mundo.
Ignorância nos jornais
Nos jornais há um problema sério. Como não há dinheiro, os jornalistas com experiência são postos foram porque com o ordenado de um paga-se dois ou três estagiários dispostos a fazer o que o chefe manda, mesmo que seja descabido. Há ignorância sobre os assuntos religiosos como sobre muitos outros assuntos.
A Igreja comunica mal
E a Igreja comunica bem? Numa palavra, não. Já aprendeu algo, mas continua a haver muitos bloqueios nas instituições religiosas. Havia um porta-voz que só atendia o telefona das 9h às 9h30 da manhã. Há desconfiança em relação aos jornalistas. Não se entende a linguagem dos meios. Pensam na lógica do púlpito, de quem fala de cima para baixo. Desconfiam do areópago, da praça pública que é feita de encontros de pessoas e opiniões. Alguns, a partir da instituição, concebem a Igreja como um castelo sitiado, ameaçado por todos os lados.
Púlpito ou praça pública?
Para os religiosos, o tempo tem uma dimensão sem medida, de eternidade e absoluto. Para os “media”, o tempo é mais próximo das pessoas, é relativo. No campo mediático, todas as opiniões valem o mesmo. Procura-se a verdade dos factos no confronto das opiniões. O jornalismo é parte, nunca e o retrato completo de nada. No campo religioso, a opinião subordina-se à verdade. E esta vem enunciada no Credo. Na comunicação a social, há leituras diferentes, a objectividade pura não existe. A Igreja pensa os meios ora como púlpito, ora como praça pública. Como púlpito, a mensagem é transmitida de maneira unidireccional e assimétrica.
Não é a criação de páginas na Internet que resolve o problema do diálogo entre as instituições religiosas e o campo mediático, mas sim o tipo de relacionamento entre as pessoas. O Facebook [uma das redes sociais na Internet] pode ser usado com a estratégia do púlpito. É pouco. Mas se for para ver o que as pessoas pensam e sentem, pode valer a pena. Na comunicação, por parte da Igreja, há navegação à vista e “pastoral de bombeiro”. Apagam-se os fogos, mas não se cuida da floresta.
Em mudança
A relação entre Igreja e comunicação social começou a mudar nos finais dos anos 80 com o aparecimento do “Público” e da rádio TSF. A mudança é mais lenta nas instituições. Mas persistem a ignorância e os preconceitos mútuos. Note-se que já Pio XII falava da necessidade de opinião pública na igreja. Dizia que era “vital”.
Excesso e defeito
A abordagem das temáticas religiosas pelos “media” não é equilibrada. Pecou por excesso nas notícias à volta da morte de João Paulo II, em Abril de 2005. E pecou por defeito no mês de Agosto seguinte, quando o Papa Bento XVI foi à Alemanha. Já na viagem de Bento XVI a África a questão do preservativo abafou as questões importantes como o facto de haver milhares de projectos de apoio às pessoas e de combate à sida que são da Igreja, ou o que o Papa disse sobre a corrupção e os direitos humanos. Os jornais não falaram disso porque estavam entretidos a falar do preservativo.
Mais propostas, menos condenações
Por outro lado, vejo a Igreja preocupada com o início e o fim da vida, mas não tanto com o decorrer da vida, através da denúncia do sistema financeiro, por exemplo. Bento XVI, na “Caritas in veritate”, fala da necessidade de refundar o sistema financeiro, mas essas referências praticamente são apagadas do discurso eclesial. As instituições religiosas deviam ser mais propositivas.
Busca de Deus
O Código Deontológico não reflecte tudo o que sou. Há convicções profundas e do Evangelho que são anteriores. Nunca me senti dividido por ser crente e jornalista. Não é a instituição que interessa; é a busca profunda de Deus.
