Alfredo Dinis, padre jesuíta, director da Faculdade de Filosofia de Braga da Universidade Católica Portuguesa e autor, com João Paiva, do livro “Educação, Ciência e Religião” (ed. Gradiva), foi um dos intervenientes no I Simpósio Fé e Cultura (Aveiro, 19 de Março). Nesta entrevista afirma que a ciência não pode responder às questões existenciais, mas reconhece que os crentes não estão a dar respostas satisfatórias a quem interroga a partir da ciência. Entrevista conduzida por Jorge Pires Ferreira.
CORREIO DO VOUGA – “Educação, Ciência e Religião” é o título do livro de que é co-autor. É importante reflectir sobre a relação entre estes três âmbitos?
ALFREDO DINIS – Sim, porque as crianças vão para a escola e aprendem sobretudo o saber científico e tecnológico, e também o saber artístico, muitas vezes ensinado por professores que têm uma perspectiva da vida muito mecanicista, muito materialista, até, no sentido em que dizem às crianças que, “uma vez que nós conhecemos o processo biológico do aparecimento da vida e da humanidade, não precisamos de Deus para nada; uma vez que sabemos que o universo é o resultado de uma grande explosão que evoluiu até agora, Deus não entra aqui”. E as crianças absorvem isto tudo. Não digo que todos os professores procedam assim, mas muitos procedem. E muitos dos que não procedem não dizem que sim nem que não e os jovens chegam à universidade com uma ignorância muito grande sobre todos estes temas.
Apercebe-se dessa ignorância na Faculdade que dirige?
Na disciplina que ensino na Faculdade de Filosofia de Braga, Cristianismo e Cultura, faço precisamente este percurso de passar por Galileu e Darwin, o Big Bang, etc., para mostrar a estes jovens como a Igreja Católica hoje vê estas questões de um modo diferente de há 500 anos.
Nota nos alunos algum preconceito anti-religioso?
Não digo que seja um preconceito de má vontade. Mas há um preconceito intelectual, cognitivo, no sentido de afirmar que Deus não é necessário. Tenho alguns alunos que me fazem essa pergunta: “Por que é que eu preciso de Deus?” No início deste ano passei uma pequena sondagem aos meus alunos e muitos disseram que não acreditam em Deus nem sabem para que é hão-de acreditar, uma vez que a ciência explica tudo.
Como lhes responde?
A fé é importante para o ser humano, que é um ser de cultura. Mas o que eu costumo dizer a esses jovens, e não só, é que nós da ciência esperamos que nos explique como funciona o universo, como funcionam as leis da natureza. Mas se eu quiser saber qual é o sentido da minha existência não vou perguntar a um químico, a um físico, ou a um biólogo. Eles não têm nada para me dizer sobre o sentido da vida. Não gosto muito de dualismos, mas neste caso eu distingo entre o saber explicar e o saber viver. O saber explicar pertence à ciência. O saber viver tem a ver com a sabedoria de vida. E há pessoas – isto é uma afirmação banal – que não sabem explicar nada dos fenómenos da natureza, mas que têm uma qualidade de vida muito superior à dos grandes prémios Nobel da Química ou da Física. Ora a religião e a filosofia, mas sobretudo a religião, colocam-se na perspectiva do sentido e do saber viver. Claro que a ciência pode contribuir. Mas para saber qual o sentido do universo, o sentido da vida, por que é que estou aqui, não pergunto ao cientista…
Mas tem havido cientistas ateus, pensemos em Stephen Hawking ou Richard Dawkins, que a partir da ciência, segundo dizem, têm feito afirmações sobre Deus, a ética, o sentido da vida. São teólogos, no fundo…
Têm surgido vários livros nesse sentido. Pretendem demostrar através da ciência, com base na ciência, mas fazem uma argumentação que muito facilmente se vê que é fraca. Além de haver alguma ignorância, há muita ideologia. A ideologia é uma perspectiva da vida habitualmente ligada ao poder. Estas pessoas estão incomodadas com a essência de Deus e com as imagens de Deus que existem em alguns crentes. Dawkins e outros estão sempre a buscar exemplos para mostrar: “Aqui está como a religião só faz mal”. “Deus não é grande; como a religião envenena tudo”, diz Christopher Hitchens. A argumentação consiste em ir à história e, cirurgicamente, pegar neste e naquele e aspecto para mostrar como Deus só faz mal. Por outro lado, no caso de Dawkins e Daniel Dennet, geralmente têm em vista os criacionistas norte-americanos, que defendem o “inteligent design” [“desenho inteligente” – corrente pseudocientífica que afirma que os seres vivos são mais bem explicados por uma causa inteligente, direcionada, do que pelo processo não direcionado da selecção natural]. Acham que os criacionistas [que interpelam o livro do Génesis à letra] são uma amostra da religião em geral. Têm uma imagem da religião tão parcial que é quase irracional.
… E quanto a Hawking…
Hawking não tem nenhuma prova de que Deus não existe. Conheci-o quando fiz o doutoramento em Cambridge. Embora ele esteja numa cadeira de rodas, é, como os ingleses dizem, “one man show”. Gosta de dar nas vistas. Gosta de aparecer, muito bem disposto, com grande sentido de humor. Apesar de falar com dificuldade [fala com o auxílio de um computador], gosta de provocar. Nos livros dele não há prova nenhuma da inexistência de Deus. Mas há cristãos, quer no passado, quer hoje, que ainda andam a ver se encontram um lugarzinho para Deus nos conceitos científicos. Por exemplo, o Big Bang. O universo começou com uma grande explosão. Mas quem provocou a explosão? A ciência sabe? Não sabe, logo… invoca-se Deus.
Referiu a concepção do Deus tapa-buracos. Invoca-se Deus para aquilo que a ciência ainda não explica, mas pode vir a explicar…
Sim, e é essa uma das imagens de Deus que aparece nos debates em que estes senhores entram e que querem destruir. Lido muitas vezes com pessoas que colocam questões deste género. Às vezes dou-lhes os parabéns por não acreditarem em Deus: “Você não acredita em Deus e faz muito bem. Só é prova de inteligência. Esse Deus de que o senhor me fala é inacreditável. Eu também não acreditaria nele. Se o Deus em que acredito fosse esse de que me fala, tornava-me ateu já hoje. Não esperava mais tempo”. Mas note-se que por vezes são imagens de Deus para as quais os crentes contribuem. Há muita gente mal formada. E depois há sempre questões como a dos padres pedófilos, infelizmente, e a das aparições. Dizem que apareceu o rosto de Cristo não sei onde, e é esta mentalidade religiosa que os incomoda e contra a qual eles lutam. Eu já lhes tenho dito: “Vocês estão a fazer um favor à Igreja Católica quando criticam com inteligência estas coisas que não têm nada a ver com Deus”. Depois perguntam-me: “Mas quem é que decide o que tem a ver com Deus? O que tem a ver com religião ou não?
Que resposta dá?
Respondo que em ciência também há muita gente que diz coisas diferentes e opostas entre si. E há revistas que aceitam uns artigos e outros não. Procura-se o consenso na comunidade dos cientistas. Ora a Igreja é uma comunidade de crentes que, tal como os cientistas, também aceita determinadas ideias coerentes com a sua fé e rejeita outras.
Disse na conferência [no auditório do Seminário, no dia 19 de Março] que os teólogos não estão a assumir os desafios colocados pela ciência. Algumas verdades da fé têm de ser reinterpretadas porque foram elaboradas num determinado contexto cultural e científico ultrapassado… Mas esta reinterpretação não chega à generalidade das pessoas.
O desafio básico está na formação dos padres. Os seminaristas que estão a estudar teologia, quer em Portugal quer no estrangeiro, não aprendem nada disto a não ser por iniciativa individual. Mesmo os jesuítas, que estudam mais tempo. E hoje temos imensas questões que vêm da ciência e da técnica, questões éticas e bioéticas. No combate ao aborto, ainda se continua a dizer que “Deus infunde a alma no momento da concepção”, quando a formação do código genético é um processo de 48 horas…
Defendem a causa positiva com argumentos erróneos…
A igreja somos todos nós e não podemos esperar que sejam os senhores cardeais a mudar a linguagem. Os não crentes põem questões muito complexas: a questão do mal, o processo evolutivo, que tem muito de aleatório e de acaso… E nós não estamos a responder. Há dois anos organizei em Braga um congresso internacional sobre Darwin (biólogo da teoria da evolução pela selecção natural). Mandei uma carta aos directores das faculdades de Teologia a pedir um teólogo para falar do assunto. Respostas: Zero. Mais, convidei o teólogo católico John Haugth, que é quem melhor tem reflectido sobre a fé cristã e a teoria da evolução, para uma conversa com teólogos portugueses e não houve teólogos interessados.
Uma falta de comparência preocupante?
Posso estar enganado, mas os teólogos e professores de teologia portugueses não estão convencidos de que a fé tem de dialogar com a ciência. Note que não é preciso saber explicar isto tudo para ser crente e cristão de grande nível. Mesmo que eu saiba as ciências todas, posso ser um grande patife e não ter qualidade de vida nenhuma. Mas há cada vez mais pessoas a colocar questões religiosas a partir da ciência que conhecem – muitos pais vêm ter comigo por causa das questões dos filhos – e os crentes não sabem responder.
