Quando e como surgiu na Igreja a Vida Consagrada? (1)

Vida Consagrada – 2 A primeira tipologia de Vida Consagrada é o monaquismo cristão (o monaquismo não é monopólio do cristianismo, é um fenómeno universal) que terá surgido nos finais do século III, princípios do século IV. No entanto, para se chegar ao monaquismo cristão houve toda uma série de reflexões e vivências, no seio das comunidades cristãs, de cunho profundamente ascético que estiveram na sua génesis. Desde o princípio do cristianismo houve homens e mulheres que renunciaram ao casamento por amor do Reino dos céus.

Esta forma de vida surgiu como uma grande novidade na Igreja e teve uma grande expansão, sobretudo no Egito, Palestina e Síria depois da chamada “paz constantiniana” (313), em que o cristianismo deixou de ser uma religião perseguida, visto que o “Édito de Milão” outorgou liberdade religiosa a todos os cidadãos do Império.

Não é de estranhar que o monaquismo tenha surgido apenas nos finais do III século, pois, durante os três primeiros séculos, os cristãos viviam um estilo de vida muito marcado pelas perseguições que muito contribuíram para uma fidelidade e perseverança aos valores do Evangelho e que, consequentemente, levou muitos a testemunhar a sua fé até às últimas consequências, ou seja, o martírio. Ora, é precisamente quando uma espiritualidade martirial começa a perder força, depois da paz de Constantino, que surge na Igreja a necessidade de uma forma de vida cristã, na qual se institucionaliza a perfeição da caridade, tal como acontecia com os mártires dos primeiros séculos. Nos primeiros séculos todos os cristãos eram chamados à perfeição da caridade mas eram os mártires os que a tornavam mais visível no momento do martírio. Assim, de modo equivalente, os monges e os religiosos seriam agora aqueles que tornavam mais visível essa caridade cristã, embora todos os cristãos a ela estivessem chamados. O que aconteceu foi que, quando os cristãos começaram a gozar de certo prestígio social, facilmente caíram numa apatia e perda de vivência cristã. Foi precisamente neste contexto que surgiram na Igreja, suscitados pelo Espírito, alguns cristãos, chamados “os ascetas”. Os ascetas, para que a Igreja não perdesse a dimensão de sinal das realidades futuras, quiseram pôr em relevo o desprendimento e o despojamento de Jesus que se “esvaziou a si mesmo, tomando a condição de servo”(Fl 2, 7). Viviam por isso em intensa oração, jejuns rigorosos, celibato e total despojamento dos bens materiais para poderem ajudar os mais carenciados.

Nos princípios, a vida dos ascetas não estava regulamentada por nenhum tipo de organização. Viviam com as suas famílias, até porque no caso de uma mulher, não se podia entender que vivesse sozinha, e dedicavam-se ao mesmo género de atividades próprias do ambiente familiar. No entanto a comunidade cristã sabia da sua existência e preocupava-se por apoiar e valorizar este género de vida.

Com o passar do tempo começou a surgir a tendência para a vida em comum e, consequentemente, a necessidade de uma organização.

Estamos perante o monaquismo cristão, que desembocará nas múltiplas instituições de Vida Consagrada que existem atualmente na Igreja.

O monaquismo adquiriu formas muito variadas. Entre elas pode-se apontar o monaquismo do deserto, quer de forma solitária, quer cenobítica (comum), sobretudo no Egito, Síria e Palestina, e que surgiu como uma contestação frente a uma nova situação eclesial. Mas também havia o chamado monaquismo urbano, cujos monges viviam mais próximo dos lugares habitados. Todos eles, quer os do deserto quer os das cidades, viviam o celibato, praticavam uma intensa oração, uma vida austera e uma caridade profunda. Os monges deixam o mundo, o lugar onde já não se pode encontrar nem o fervor nem o desprendimento para serem, no deserto, uma chamada de atenção à condição escatológica de todos os batizados.

A origem do monaquismo coincide com a última etapa das perseguições, os monges são os sucessores dos mártires.

O surgimento da vida monástica na Igreja nos finais do século III e princípios do século IV fez com que surgisse no seio da Igreja um modo novo de viver a vocação batismal que se foi encarnando e diversificando ao longo da história e que lançou as bases para um estilo de vida ao qual chamamos atualmente “Vida Consagrada” (cf. J. ÁLVAREZ GÓMEZ, Historia de la Vida Religiosa I, Madrid, Publicaciones Claretianas, 1996).

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