Diálogo que tem de continuar sem intermitências

Um dia de comunicações e debates dedicados ao diálogo fé / ciência para alguns pode parecer excessivo. Ou porque se colocam do lado da ciência e julgam que esta é o único campo do saber que pode produzir afirmações válidas sobre o mundo em que vivemos, ou porque consideram que a fé prescinde de outras “verdades”, principalmente se estiverem em oposição ao que a Bíblia diz. No primeiro campo estão os cientistas ateus e os ateus mesmo sem serem cientistas. No segundo estão, por exemplo, os cristãos que defendem que a descrição bíblica das origens do universo e do ser humano tem de ser interpretada à letra.

Mas há ainda um grupo de pessoas, o maior, para quem um dia para este diálogo parece excessivo: os indiferentes, quer estejam mais ligados ao campo das ciências quer das religiões. Mas se alguém das ciências positivas pensa que não é preciso dialogar com a fé cristã, os cristãos sabem – ou deviam ter consciência de – que muita da sua credibilidade passa por saber dialogar e dar razões da sua fé em contexto geralmente exigente como é o da ciência. Como acreditar que Deus criou e cria o mundo quando os cientistas lançam a hipótese da auto-suficiência deste? Como falar de pecado original sem ter existido o par Adão e Eva? Como conciliar criação divina e evolução pela selecção natural? Até onde pode a ciência reconfigurar o ser humano, obra suprema de Deus, através da engenharia genética, por exemplo? Como conciliar a redenção operada por Jesus Cristo com a possibilidade da existência de vida noutros planetas? Saberes opostos? Em conflito? Paralelos? Indiferentes? Em diálogo frutuoso?

Como o I Simpósio Fé e Cultura, iniciativa tão válida do ISCRA (Instituto Superior de Ciências Religiosas de Aveiro) e relativamente bem divulgada, no dia 19 de Março, colheu o interesse de apenas sete dezenas de pessoas, diríamos que mesmo os cristãos mais empenhados, certamente devido aos imensos afazeres, como é normal num fim-de-semana, dão pouco valor, estão pouco despertos ou não têm tempo para o diálogo fé /ciência, que é um dos âmbitos mais importantes das relações mais vastas entre fé e cultura. As intermitências acontecem por falta de comparência?

Logo da abertura do simpósio, P.e Querubim Silva afirmou que “a cumplicidade entre ciência e fé é intrínseca”, porém, “a fragilidade dos seres humanos pode criar intermitências”. D. António Francisco, por ser turno, realçou que ao ISCRA “pede-se a ousadia da criatividade” em iniciativas como este simpósio que coloquem a Igreja em diálogo com as “instâncias culturais em que o futuro da humanidade se decide”. O diálogo apenas começou neste I Simpósio. Há que continuar. Em questão está sempre o saber dar razões da esperança. O mesmo é dizer: o significado e a importância de ser cristão num mundo culturalmente exigente.

J.P.F.