Aveirenses Esquecidos Augusto António de Carvalho, conhecido por “Augusto Tamanqueiro” e, nos meios mais artísticos de Esgueira, por caricaturista “Argus”, perpetuou nas paredes brancas da sua oficina de tamanqueiro algumas das personagens do seu tempo, tanto aveirenses como de outros cantos do país e do mundo.
No dia 22 de Novembro de 1890 nasceu António Augusto de Carvalho, que se tornaria conhecido por “Tamanqueiro de Esgueira” e por caricaturista “Argus”, o qual apesar de falecido no dia 27 de Setembro de 1974, com quase 84 anos de idade, é hoje uma personalidade quase desconhecida dos aveirenses.
No ano em que as paredes das cidades eram o meio privilegiado para os cartoonistas deixarem as suas caricaturas e mensagens políticas, falecia o caricaturista “Argus”, que transformou as paredes brancas da sua oficina de tamanqueiro numa “galeria” de caricaturas onde “conviviam pacificamente” gente de Esgueira ou de Aveiro com políticos nacionais ou estrangeiros, escritores, artistas e personagens conhecidas de todos, por motivos diversos.
37 anos após a sua morte, as paredes do “atelier” de Augusto António de Carvalho continuam repletas de caricaturas desenhadas directamente sobre o reboco branco… à espera que o “camartelo do progresso” as faça desaparecer para sempre.
Na “casa-museu do caricaturista aveirense Argus” há imagens imprescindíveis não só para a história das gentes de Aveiro, e muito em especial de Esgueira, mas também das artes, das letras e da política nacional. Há ainda “retratos” de personagens que marcaram a história da humanidade na primeira metade do século XX.
O secular edifício, considerado um dos mais antigos de Esgueira, deveria ser valorizado e aberto a visitas públicas, nomeadamente das escolas, porque esse espaço foi muito mais do que “atelier / exposição” da obra gráfica de “Argus” e de oficina “tamanqueira”, pois albergou um grupo informal de artistas das artes de palco e musicais, de Esgueira e de Aveiro.
Maria Emília de Vasconcelos Carvalho Caetano, filha do caricaturista, disse, recentemente, que “vem cá muita gente ver estas coisas”, em especial os desenhos “feitos pelo meu pai, na parede. Alguns eram feitos com tinta, mas quase todos foram com lápis, por isso, muitos dos desenhos estão a começar a desaparecer. Antigamente, estava tudo muito lindo”.
“Argus” inspirava-se em diversos motivos para fazer as suas caricaturas, pormenores sempre relacionados com o aspecto físico dos “retratados”. Estes podiam ser pessoas com importância no meio (local, nacional ou mundial), como pessoas da proximidade do próprio “Tamanqueiro”, incluindo ele próprio, que se “auto caricaturou” em vários momentos, sempre com interessantes pormenores físicos (orelhas enormes e nariz exageradamente comprido e curvo). Em alguns casos, a personagem visada na caricatura está acompanhada por motivos relacionados com a sua actividade profissional ou da sua vida pública.
As pessoas do meio próximo de Augusto “Tamanqueiro” eram caricaturadas ao vivo, ou pelas respectivas imagens guardadas na memória do artista. As personagens de outras paragens eram caricaturadas a partir de fotografias publicadas na imprensa da época.
Gente de todos os quadrantes
“Argus” retratou personalidades locais (Maestro Lé, Guerra de Abreu) e gente anónima de Esgueira. Estas pessoas que ladeiam com figuras das artes (Taborda), da literatura nacional (Castilho, Guerra Junqueiro, Eça de Queirós, Camilo Castelo Branco, Camões, Bocage, Herculano) e internacional (Máximo Gorki), da política portuguesa (Manuel de Arriaga, Afonso Costa) e mundial (Hitler), da história (Marquês de Pombal, Afonso de Albuquerque, Vasco da Gama), do desporto (Santa Camarão) e personalidades do seu tempo (Gago Coutinho, Sacadura Cabral), entre muitas dezenas de personagens, incluindo o próprio “Tamanqueiro” em “auto-retratos”, ou melhor “autocaricaturas”.
Cardoso Ferreira
Bordalo Pinheiro, “o mestre dos mestres”
Apesar de Augusto de Carvalho ter feito muitas dezenas de caricaturas, incluindo várias auto-caricaturas, não fez nenhuma caricatura das filhas nem do filho, como realça Maria Emília de Vasconcelos Carvalho Caetano.
Sob a caricatura de Bordalo Pinheiro, “Argus” escreveu “o mestre dos mestres”, pelo que é visível a sua admiração pelo “pai” do “Zé Povinho”.
Além das caricaturas feitas nas paredes, Augusto Tamanqueiro também desenhou várias dezenas de caricaturas em papel, que colou num caderno, em jeito de livro, obra inédita, ainda que muitas delas tenham sido publicadas no livro “Traços caricaturaes por Argus”, editado em 1989 pela Junta de Freguesia de Esgueira, numa homenagem a Augusto António de Carvalho (Augusto Tamanqueiro).
Amante da música
Augusto António de Carvalho foi também um exímio instrumentista, tendo ensinado muitos aveirenses a tocar bandolim, violão, banjo, entre outros instrumentos de cordas e de sopro, fazendo da sua casa um “conservatório”, sendo mesmo local de ensaio musicais, uma vez que chegou a tocar clarinete numa tuna, na Banda Amizade, e em ranchos folclóricos.
