Olhos na Rua No livro “A sublime arte de envelhecer”, o autor Anselm Grun, um mestre espiritual atento à vida das pessoas, lega-nos o seguinte desabafo: “Um professor universitário contou-me que tinha sido muito difícil para ele deixar de ser convidado para conferências ou palestras radiofónicas. Ficou com a impressão de ter sido esquecido, apesar da convicção de que ainda tinha muito para dizer e de que a sua experiência era fundamental para as outras pessoas. Mas ninguém o queria escutar. E isso feria-lhe os sentimentos”.
Este apagamento dos mais velhos que “ainda têm muito para dizer” é já na vida de muitos avós e de muitos outros idosos “sábios” que a sociedade considera a mais, porque só são vistos pelos incómodos, nada produzem e esgotam o fundo de pensões… Daqui a dias veremos nos altares um idoso, doente grave com marcas visíveis, que deixou olhos de doçura e saudade em milhões de corações agradecidos. Alguns também o acharam a mais e recomendaram que se retirasse. Não aceitou ser o inútil que outros o quiseram que fosse. E disse que ficava até ao fim, para que a sociedade e a Igreja aprendessem a estimar e dar valor aos idosos.
A solidão imposta e a sensação de ser peso que ninguém suporta vão matando antes da morte. Ninguém está a mais neste mundo que também é seu. É o amor que dá e conserva a vida, e ninguém pode viver sem amor. Acautelem-se os donos do mundo. Sem memória nada se pode consciencializar e, então, o futuro será lixo, vida sem raízes, casa com alicerce de areia.
