A Árvore de Zaqueu O ponto é sabermos de quem é a graça em que caímos. Muitas vezes, cair em graça de alguém é prender-se à desgraça desse alguém. Raramente é seguro cair em graça, enquanto isso não se traduzir numa situação de independência económica. É claro que há sempre quem saiba aproveitar-se bem da «graça» dos outros.
Na 1.ª leitura, foi David quem caiu em graça, embora não fosse ele mas Eliab o mais engraçado.
S. Paulo dá uma volta ao provérbio: se não nos fazemos engraçados perante Deus, não conseguimos cair na sua graça.
Quanto a S. João, apresenta-nos uma das histórias mais dramaticamente bem desenvolvidas de todo o Evangelho. O cego caiu na graça de Jesus sem sequer pretender fazer-se engraçado; fez-se engraçado perante os fariseus e só lhes caiu na desgraça; finalmente seguiu o conselho de S. Paulo: mostrou a Jesus a sua maneira de ser engraçado e Jesus revelou-lhe o segredo e a força da sua graça.
O provérbio em questão é exemplo da sabedoria amarga: dá conta de que o sucesso na vida depende mais do proteccionismo do que do valor pessoal. Mas também é um conselho de prudência e até de esperteza: os poderosos não podem ser atacados frontalmente, e até se tornam fracos se lhes alimentamos a vaidade.
Também chama a atenção para um princípio estratégico: «Qual é o rei que parte para a guerra contra outro rei e não se senta primeiro para examinar» a probabilidade de vitória? (Lucas 14, 31-32).
Jesus é realista (porque sabe o valor dos ideais): cada pessoa tem um modo próprio para o seguir. A grande graça de Deus é que nos fez, a cada um de nós, inimitavelmente engraçados. É com o jeitinho de cada qual que caímos na graça de Deus.
Acontece que, na maioria das organizações humanas, este jeitinho ou originalidade é olhado com suspeita e mesmo com aberta desaprovação. É muito mais fácil organizar uma sociedade quando não se permitem posições pessoais. E os critérios de escolha de pessoas assentam facilmente, por isso mesmo, em características superficiais, as únicas facilmente avaliáveis, ao contrário das qualidades profundas de alguém.
A «comunidade joânica» é a fonte do Quarto Evangelho (o de João), que explora abundantemente as oposições luz/trevas, espírito/carne, vida/morte, verdade/falsidade, céu/terra. Os problemas e perplexidades desse grande grupo reflectem-se ao longo de todo o evangelho (bem como no Livro do Apocalipse). Ninguém desse grupo tinha conhecimento directo de Jesus e debatiam-se num mundo em que não era fácil acreditar a sério na sua mensagem. Ouviam falar de Jesus como sendo «a vida» mas no cenário em que a morte é angustiante. Nem sequer eram tolerados pela comunidade judaica, e a maioria dos termos religiosos da cultura hebraica já pouco lhes dizia.
A esta comunidade não interessavam tanto as «histórias sobre Jesus» mas sim o que Jesus podia significar noutros tempos e contextos. O «Evangelho de Jesus» não é visto como um código mas sim como a revelação da «graça de Deus», que aumenta a nossa insatisfação por uma vida plena, já agora e para sempre. Muito significativamente, S. João nunca usa o substantivo «fé» mas unicamente o verbo equivalente a «ter fé», notando que a fé não é um bem de herança: é uma luta contínua por descobrir o que é Deus para nós.
O facto da figura histórica de Jesus se ir afastando no tempo provocou a consciência de que a vida de Jesus era de facto uma vida junto de um Pai para o qual ninguém morre (Lucas 20, 38). E de que Jesus foi a expressão do amor desse Pai. E de que a força desse amor (ou Espírito de Deus) continua connosco, continuando a revelação pelos tempos fora e provocando o nosso jeito de nos fazermos engraçados, como o cego que se foi lavar à piscina do «Enviado».
Manuel Alte da Veiga
