Questões Sociais No penúltimo artigo foi feita alusão a mais de dez forças sociopolíticas que actuam na sociedade portuguesa: Elas vão desde o grande capital ao povo pobre, e desde o Estado às «forças morais». Neste contexto, justifica-se perguntar se também existe uma força cristã ou, mais precisamente, católica.
Escasseiam elementos para uma resposta consistente, mas sabe-se que: existem cristãos em todas as forças sociopolíticas; variam neles, como nos outros cidadãos, os comportamentos morais, mais dignos ou mais condenáveis; não parece evidente que suas empresas e outras iniciativas, na ordem temporal, se distingam claramente das de outros cidadãos. Em suma: Pode afirmar-se hoje, como no passado, que o mundo seria pior sem o cristianismo; porém, não se vê, nos dias de hoje, em que consiste esse acréscimo de bondade, na esfera socioeconómica.
A descaracterização dos cristãos talvez se deva, além do mais, aos interesses particulares e às divisões internas: cada cristão parece viver mais na respectiva força sociopolítica do que na comunhão elesial; aliás, dentro da própria «comunhão», abundam as comunidades, congregações, movimentos, grupos… bastante divididos.
Eis algumas divisões mais visíveis: entre idealistas e realistas; trabalhadores, por conta de outrem, e empresários; adeptos da esquerda e da direita… As divisões tornam-se muito mais graves porque não existe diálogo, no interior da Igreja, entre os diferentes posicionamentos; quase se dá a entender que esse diálogo não é próprio da vida eclesial. Mas se, pelo contrário, ele se efectivasse, assumir-se-iam as diferenças e procurar-se-iam os entendimentos possíveis; particularmente os entendimentos relativos à base evangélica e finalidade salvífica, bem como ao respeito pelos diferentes caminhos, partidários ou outros; então poderiam desbravar-se alguns caminhos comuns e complementares, salvaguardando sempre o são pluralismo. A força cristã, não sociopolítica mas promotora de irmandade, consiste na impregnação de todas as outras e de toda a «ordem terrestre» pelo cristianismo; e este não se reduz a nenhum partido política, sistema económico ou projecto de vida colectiva (cfr. o Decreto conciliar sobre o Apostolado dos Leigos, nºs. 5-7, e a Constituição Pastoral sobre a Igreja no Mundo Contemporâneo, nºs. 42-43, 45 e 58).
