Entre o altar e o laboratório

Fé e Ciência Os padres Teilhard de Chardin e Manuel Póvoa dos Reis conciliaram vidas dedicadas à investigação científica e de entrega à Igreja.

Teilhard de Chardin (Orcines, França, 01-05-1881 – Nova Iorque, 10-04-1955) e Manuel Póvoa dos Reis (Eirol, Aveiro, 20-10-1907 – Coimbra, 05-06-1991), padres e cientistas, souberam conciliar vidas dedicadas à investigação científica e entregues à Igreja através do sacerdócio ministerial.

P.e Póvoa dos Reis era um “evolucionista convicto, pelo menos no que respeita ao que alguns autores denominam de micro-evolução”, declarou P.e Georgino Rocha, ao traçar o percurso biográfico, científico e espiritual do padre-cientista, que um dia afirmou: “Quanto a mim – e tenho-o dito muitas vezes aos meus alunos – ainda que os cientistas conseguissem realizar no laboratório um homem vivo à custa de matéria químicas por eles sintetizadas, o que nesse homem se manifestasse, a inteligência racional, a vontade livre e a consciência moral, com isso a minha fé não sofria o mínimo abalo”.

Reconhecido nacional e internacionalmente, enquanto biólogo e botânico, descobridor de várias algas da ria de Aveiro e do Vouga que ostentam o seu nome, o P.e Póvoa dos Reis é descrito pelos seus colegas e discípulos investigadores como “um gigante de amizade e simplicidade”, “modelo de trabalho desinteressado”, “gigante na simplicidade do ser”. P.e Georgino Rocha sintetiza deste modo a vida daquele que, ao passar por uma crise quando ainda estudava no Liceu de Aveiro, entrou no Seminário de Coimbra “para saber se Deus existe”: “É um contemplativo na acção, pedagogo da fé de várias gerações, amigo da mística existencial que em Jesus Cristo se revela plenamente. Padre: homem de fé que na ciência encontra caminho para descobrir e admirar as maravilhas de Deus. Padre: homem de ciência que na fé encontra novos impulsos para investigar os segredos da natureza e a sua exuberante biodiversidade”.

Michel Renaud, professor de Filosofia, de origem belga, apresentou a vida e o pensamento do jesuíta Teilhard de Chardin, paleontólogo (isto é, investigador do passado longínquo da vida sobre a Terra) e teólogo que afirmava que “o Cristo da revelação não é senão o ponto Ómega da evolução”. Teilhard de Chardin não foi compreendido durante a vida pela Igreja e pela sua congregação, que não lhe permitiu, por exemplo, que aceitasse a cátedra do Colégio de França após as investigações na China e em África sobre os antepassados do ser humano. Em 1951 foi viver para os Estados Unidos, tendo morrido no dia 10 de Abril de 1955, dia de Páscoa. As suas obras, publicadas postumamente, tiveram grande repercussão em assuntos como a evolução humana, o pecado original, o aparecimento da consciência, o finalismo e determinismo da vida. Estes assuntos continuam a ser discutidos em congressos internacionais periódicos convocados especificamente para aprofundar o legado de Teilhard de Chardin, pessoa que continua a ser modelo de diálogo e integração entre fé e ciência.