Poço de Jacob – 78 Nesta nossa caminhada pelos embriagados de Deus, no rasto da Samaritana, e chegando perto de Maio, ou já nele, não podemos deixar de falar deste homem que embebedou o mundo com o divino, para usar termos de Santa Teresa. Disseram-me as carmelitas de Alba de Tormes, onde está sepultada a santa, que um dia um jovem padre polaco chegou ali para celebrar Missa. Estava em Espanha para aprofundar a sua tese sobre S. João da Cruz. As Irmãs concederam-lhe a possibilidade de celebrar sobre o primeiro túmulo de Santa Teresa, sobre a pedra onde se fizera a exumação do seu corpo e que ainda hoje está manchada de sangue. A admiração delas é que, passadas duas horas, o padre ainda ali estava, celebrando a Missa, sozinho, envolvido numa embriaguez de amor. Muitos anos depois, ele ali voltaria… como Papa da Igreja. O seu nome: João Paulo II, o Grande. Grande embriagado do divino, que contagiou o mundo, descendo aos caminhos dos homens de todos os continentes, em mais de 26 anos de pontificado.
Amado e odiado, aplaudido como espectáculo e seguido como quem “sai gritando pelas ruas”, ao jeito da mulher de Sicar, moveu corações, fez nascer histórias de amor. Riu e chorou com quem ria e chorava. Abraçou as crianças, abençoou os idosos, exaltou a mulher, repreendeu padres e bispos, derrubou muros, não teve vergonha nem de rezar o terço como sua oração predilecta, nem de beijar o chão dos países que visitava, nem de venerar as imagens e relíquias de santos e de Nossa Senhora, seu grande amor, a quem consagrou sua vida num “Totus Tuus” que virou lema da Igreja e colocou Fátima no coração do mundo, pois em 1984 realizou o pedido, aceite pelo céu, finalmente, de consagrar o mundo ao Coração de Maria, como Nossa Senhora pediu na Cova da Iria e em Tuy. A sua história? Poderíamos dizer trágica? Perdeu a mãe, depois o irmão que tinha, também o seu pai. Ficou só numa Polónia dominada pelo nazismo. Estudou clandestino. Poderia ser tudo. Belo homem, não lhe faltavam pretendentes. Culto, não lhe faltariam oportunidades. Trabalhou em tudo o que cria calos profundos nas mãos. Atropelado por um caminhão nazi, sobreviveu. Fugia das rusgas que poderiam levá-lo à morte. Viu a sua querida Polónia destruída pelas armas da impiedade. Escondeu amigos judeus da deportação que ainda hoje brada aos céus…
Padre jovem, viu sua terra submetida a uma outra tirania, embora mais serena que nos outros países sujeitos ao mesmo jugo. Levantou a voz sem medo de ser deportado para a Sibéria. Cardeal, levantou um povo e Nova Huta, a cidade que se pretendia sem Deus e que hoje tem uma Igreja cuja porta do sacrário tem uma pedra da lua. Mostrou até onde podem chegar os que se deixam embriagar pelo divino. O seu sorriso, a sua voz, o seu olhar, e aquele “Habemus Papam” que fez engasgar os dirigentes da Rússia e do mundo por ser polaco… Caiu sob o tiro de uma arma num 13 de Maio e aí entendeu, como tão bem diz Aura Miguel no Livro “O Segredo que Conduz o Papa”, recentemente reeditado e que recomendo, que a sua vida estava ligada a uma aparição mariana em Portugal e ao olhar meigo da sua virgem de Czestochowa. Era aquele que em 1935 Jesus anunciara a Faustina Kowauska: Da Polónia nascerá aquele que introduzirá a Igreja no terceiro Milenio…
Perdoou ao seu quase assassino e definhou, depois de ter ido a todos os continentes e ter passado à porta das nossas casas. Não teve vergonha de mostrar seu aniquilamento ao mundo e como se babava quando lia a sua homilia, ou adormecia, escondendo-se quase desmaiado detrás do altar. Abraçou a cruz… Amou e partiu… O seu funeral não teve nem terá algum outro que se lhe compare. De todo o mundo, todas as religiões. Toda a cor política… Três milhões de pessoas a encherem ruas e praças de Roma, chorando com biliões no mundo inteiro, enquanto dávamos graças por tanta bebedeira do divino e gritávamos esperançados: “Santo subito”, “Santo já”, que também, emocionados e saudosos, repetimos neste 1 de Maio de 2011.
Se mais ninguém nos vier falar de como Cristo enche e sacia, basta olhar para João Paulo II. No meio das nossas dores, poderemos entender, não só que Deus existe, mas que apostar nele é o empreendimento mais valioso e o único válido da nossa vida.
Obrigado, Senhor, obrigado, Maria, por Karol Wojtyla e pela Polónia, que nos deu este seu filho para nos dizer o que é o lema deste país da Divina Misericórdia: Sempre fiel… Então, sim, “Santo subito”!
P.e Vitor Espadilha
