Poço de Jacob – 76 Chama-se Moisés Azevedo. Tem 50 anos. Natural do Brasil, Bahia. A sua mãe queria um filho homem e só o conseguiu depois de cinco meninas e uma espera de perto de 25 anos. Engravidou aos 45. Consagrou-o a Deus como desejava, na linha das mães bíblicas do Antigo e Novo Testamento, como a mãe do P.e José Kentenich, como a de D. Bosco, como Teresa de Ávila e Teresinha de Lisieux. Aos doze anos decidiu que não ia mais à Missa. Não estava de bem com a Igreja, pois para entendê-la e amá-la, só baseados na fé. Se a vemos com olhos meramente humanos, as fragilidades dos seus membros, como as dos apóstolos, são tantas que saímos e não a amamos.
O seu pai, praticante assíduo e convicto, disse-lhe, sem medo de ferir ou violentar a liberdade do menino, como hoje por aí se diz na educação de libertinos que se dá aos filhos: “Enquanto estiveres sob o meu tecto, fazes o que eu mandar…” E assim foi. Hoje agradece. Eu lembro-me que a professora que eu mais agradeço em toda a minha vida, entre tantos maravilhosos que tive, foi uma de Português, na escola José Estêvão de Aveiro. Tínhamos medo dela. Exigente. Avaliava por baixo. Mas ensinou-me a levar a sério o estudo. Quando me ordenei, procurei o seu paradeiro e disse-lhe: “Obrigado”. Conheço homens de 30 anos que não fazem nada sem a mãe, que assim os educou, lhes colocar tudo à disposição. São incapazes de criar e, se puderem, dormem até o meio-dia, até que a mãe ou a esposa os acordem para tomar café. Esses não farão uma história linda, nunca.
Moisés disse que agradecia os pais que teve e o obrigaram a obedecer, ainda que contrariado. Disse que o ser humano é para se educar. No fundo, todos nascemos matéria bruta. E a educação implica renúncia, sofrimento, exigência, luta, humilhação, trabalho, obediência. Um dia, com 20 anos, participou, contrariado, num retiro e deu-se o encontro com Jesus. Descobriu o Poço da Água Viva. Diz ele que a felicidade bateu à sua porta e viu que ela só se encontra n’Ele, não nos caminhos que os jovens de ontem e de sempre procuram e trilham… Um dia, o bispo, em 1985, na visita do futuro beato João Paulo II disse-lhe que ele iria entregar ao Papa um presente. E seria o Moisés a escolher o que dar ao Papa. Tinha 20 anos! Rezou… para decidir à luz de Deus, como todos deveríamos fazer sempre, em todas as circunstâncias decisivas de nossa vida. E Deus disse-lhe, sentiu ele assim, no fundo do seu coração: “Dá a tua vida, em liberdade, para que os outros possam ser felizes como tu, especialmente os jovens”. E foi esse o presente que, em forma de envelope, ele entregou ao Santo Padre: a sua vida! Afinal, a mãe já o tinha dado ao Senhor! O tempo foi passando e ele interrogava-se sobre como chegar aos jovens que via na rua em busca de felicidade, no sexo, na droga, na moda, na fama, no dinheiro… Um dia, com um grupo que se lhe foi juntando, com o mesmo ideal, abriu uma pastelaria. Ali se serviam doces, bebidas. Os nomes eram bíblicos. A Bíblia sobre cada mesa. O jovem era acolhido. Um outro o interpelava. E acabava por o levar para os fundos da pastelaria (?!). Estava ali o Santíssimo Sacramento exposto, numa capela, com as devidas autorizações… e Jesus fazia o resto.
Ah, se na Avenida Lourenço Peixinho, a nossa diocese tivesse a coragem de fazer algo parecido. Como o nosso povo precisa disso nas ruas de Aveiro e ninguém acorda para dar a sua vida e abrir um espaço onde Jesus faça o resto no coração dos que ali entrarem. Há tanta loja devoluta. Bem podia ser o espaço da felicidade verdadeira! Pois, foi assim que nasceu a Comunidade Shalom, que hoje tem casas por esse mundo fora e mais de cinquenta mil membros. Existe há 28 anos e tem casa em Portugal. Vemo-los, alegres e acolhedores a orientar a liturgia em Nazareth, na Galileia, por exemplo. Moisés não se quis casar. Nem ser padre. Nem ser diácono permanente. Só leigo célibe. Dando a vida em Aliança. Fundador sem o querer. A sua comunidade recebeu o reconhecimento pontifício e ele foi nomeado pelo Papa como delegado pontifício para tudo quanto se refere ao papel do leigo na Igreja. Ouvi-o há dias na Escola da Fé da Canção Nova. Envolveu-me e ajudou-me a renovar o meu sim. Afinal, rico é o que dá. E feliz é quem ama. Embriagados de amor. Pó enamorado por Cristo. Tudo para que os homens alcancem a felicidade e saciem a sede de Deus.
P.e Vitor Espadilha
