«Solidariedades» que empobrecem

Questões Sociais A solidariedade é, em si mesma, um enriquecimento humano da mais alta relevância; na dimensão ética, na social, na cultural, na económica e noutras. João Paulo II até a associou estreitamente à paz, como Paulo VI lhe havia associado o desenvolvimento (cf. a encíclida «Sollicitudo Rei Socialis», 1987, nºs. 10 e 39). No entanto, apesar desse potencial de enriquecimento, verificam-se algumas expressões de solidariedade que, no fundo, a deturpam e actuam como factores de empobrecimento. Isso tem acontecido, nomeadamente, na solidariedade assistencial, na solidariedade com direitos e na solidariedade que resiste à desumanidade da economia. Vale a pena explanar, ligeiramente, cada uma destas deturpações.

A solidariedade assistencial foi sempre uma expressão indispensável de solidariedade; ela traduz-se na cooperação directa com outrem na procura de soluções para os seus problemas. No entanto redundou, muitas vezes, em assistencialismo; isto é, na permanência da pessoa assistida na situação de dependência. Em tal situação, a pessoa assistida e a sociedade ficam atrofiadas no seu desenvolvimento; ficam empobrecidas.

A solidariedade com direitos é uma aquisição histórica extraordinária, conseguida especialmente ao longo do século passado. No entanto redundou, muitas vezes, na propensão para o direito ao não trabalho. Esta propensão observa-se nos empregados que não trabalham e na recusa de oportunidades de emprego, sem motivo suficiente. Mesmo que a propensão se verifique em poucas pessoas, não deixa de se traduzir num duplo empobrecimento: no não trabalho, sem justificação, e na correspondente irresponsabilidade.

A solidariedade que resiste à desumanidade da economia é um forte motivo de esperança, hoje em dia, perante as desigualdades sociais, a pobreza e a concentração de poder económico. Mas também se integra nos processos de empobrecimento, na medida em que ainda não dispõe da criatividade, eficácia e organização necessárias.

Um dos grandes desafios da hora que passa é, precisamente, a recriação da solidariedade, transformando-a em movimento universal e promotor de uma sociedade mais justa e humana.