Egoísmo, na defesa dos pobres

Questões Sociais Várias pessoas e forças político-sociais vêm defendendo que os rendimentos mais baixos, auferidos através de salários, pensões e outras prestações sociais, não podem baixar, nem ser congelados, mesmo na crise actual. Esta defesa é feita com base nos princípios da justiça e da solidariedade, consagrados universalmente e, de modo particular, na doutrina social da Igreja. Acontece, porém, que tais defensores raramente explicitam quais as fortunas e rendimentos que devem ser sacrificados; ou limitam-se a considerar quase só as maiores fortunas e os rendimentos mais altos. Deste modo, alimentam a ideia de que todas as outras fortunas e rendimentos fiquem salvaguardados.

Tal posição esquece três realidades bastante óbvias: primeira, muito provavelmente as maiores fortunas e os rendimentos mais altos não chegariam para o equilíbrio da situação económico-financeira do país; segunda, os respectivos detentores podem transferir para fora do país, e já começaram a transferir, uma parte significativa dos seus bens; terceira, esses bens resultaram em geral da competitividade económico-social, que envolve a maioria dos portugueses. Acresce que a aspiração a possuir as maiores fortunas e os mais altos rendimentos não é exclusiva de quem os possui. Até se pode afirmar que muita gente não atingiu esse patamar porque não conseguiu.

Na verdade, o processo gerador de desigualdades acha-se difundido por toda a sociedade; traduz-se numa hierarquização de desigualdades que vão desde os níveis mais baixos até aos mais altos. Por isso, o imperativo de justiça e solidariedade efectivas convida todos os detentores de riqueza e rendimentos acima da média a: serem mais contidos nas suas aspirações; a examinarem-se acerca da justiça dos níveis que alcançaram; e a participarem activamente a favor de uma sociedade e economia sem desigualdades inaceitáveis. Caso não actuem deste modo, perde credibilidade a sua luta aparente a favor dos rendimentos mais baixos; com efeito, defendendo verbalmente esse imperativo, mas não se disponibilizando para fazerem algum sacrifício, acabam por defender os seus próprios interesses, a coberto da defesa das pessoas mais pobres. Pugnam pelos seus interesses, sob a capa da defesa «corajosa» dessas pessoas. A luta contra as desigualdades não pode limitar-se à luta contra quem ganha mais do que nós; pelo contrário, deve começar na auto-contenção e na autocrítica de nós próprios.