A Árvore de Zaqueu «Nos últimos dias, diz o Senhor, derramarei o meu Espírito sobre toda a criatura. Os vossos filhos e as vossas filhas hão-de profetizar», e toda a Humanidade sentirá mais vivamente a Força do Espírito de Deus. Com esta citação do profeta Joel (3,1-5), começa o discurso de Pedro (Actos 2,17-18), de que a 1ª leitura só apresenta uma parte. É uma Força a que não podemos pôr entraves para com ela podermos dialogar, como se dialoga com um amigo. E pouco a pouco (ou por uma iluminação inicial), vamos caindo na conta do que significa dizer que Jesus é o Messias, o Cristo.
Em várias passagens, o Antigo Testamento rompe com a ideia de uma autoridade constituída como único detentor da verdade: no tempo em que Moisés ainda conduzia o seu povo pelo deserto, Deus quis dar o seu Espírito a um grupo alargado de pessoas de confiança do povo, tornando-os aptos a falar em nome de Deus. Logo houve quem se indignasse, junto de Moisés, por dois homens estarem a profetizar sem terem estado presentes à “tomada de posse” – e Moisés de responder: «Não tenham ciúmes! Quem dera que o Senhor enviasse o seu Espírito sobre todo o povo!» (Livro dos Números 11,24-29).
Jesus encarnou, na História, a Força de Deus, que ama a cada um dos seres humanos ao longo de todos os tempos, e convida cada um a exprimir, à medida e ao feitio dos «talentos» que lhe foram entregues, a sua contribuição para o projecto de um mundo novo, a «nova criação» de que fala toda a Bíblia, com imagens diversas.
Para trabalharmos neste «mundo novo», a 2.ª leitura aborda um tema delicado: devemos submeter-nos à injustiça?
A passagem que se lê aplica-se só aos escravos daquele tempo, que a cultura judaica já tratava com relativa humanidade (Êxodo 21; Deuteronómio 15). Na primitiva igreja cristã, vários escravos desempenharam altas funções na comunidade. Jesus não se calou perante a injustiça, e questionou o fundamento do poder de Pilatos (João 19,10-11). A posição do cristão perante as autoridades deste mundo vem expressa nos parágrafos anteriores aos que são lidos (2,13-17): «praticando o bem, emudecereis a ignorância dos insensatos». A grande lição é que há sempre muito a fazer para melhorar o mundo. Estamos perante a preocupação pela ordem, que se manifesta na paz. Não é verdade que continua a ser um grave desafio “ordenar” o bem comum e o bem pessoal, regionalismo e universalismo, originalidade e massificação, submissão e liberdade?
Por fim, o «domingo do bom Pastor» só tem sentido no longo contexto histórico da pastorícia. As ovelhas estão calmas porque o Pastor tem mais conhecimentos, sabe das melhores pastagens e protege a qualidade de vida das ovelhas. Não é só pastor mas «a porta» do redil: por ela «se entra e sai» – hebraísmo que designa a confiança e liberdade de quem usa essa porta, apontando a acção responsável das “ovelhas”, que agem em conformidade com o sentido de bem e mal.
Hoje, Jesus poderia ser “o bom empresário” (também há empresários da política, da educação, da própria religião…), que defende a solidez da sua empresa: quem se arroga ser o que não é, quem atrai e engana, esse é «ladrão e salteador». O mau empresário até faz negócio com «salteadores e ladrões», e quando vê o perigo, agarra no dinheiro e foge, deixando os outros no desemprego e miséria.
O «bom empresário» estimula os empregados e fá-los participar numa gestão sempre em melhoramento. Se os primeiros cristãos deram importância ao «túmulo encontrado vazio», foi para afirmar que seguem não um morto mas um vivente: um «empresário» que já não está sujeito a nenhum tipo de destruição, porque foi exaltado pelo Espírito de Deus e a sua acção tem a sabedoria forte e suave desse Espírito. Quaisquer restos mortais seriam facilmente usados como amuleto milagroso para curar os males que não nos apetece resolver.
A empresa é sólida e tem lugar para os projectos mais futuristas – sempre com as portas abertas para se entrar e sair livremente. A norma é a vontade criativa de cada qual para o bem comum.
Manuel Alte da Veiga
