A prospecção arqueológica no espaço exterior do conjunto arquitectónico formado pela Igreja de Santo António, Capela de S. Francisco e Casa do Despacho, em Aveiro, pôs a descoberto achados arqueológicos relevantes não só para a história daquele conjunto monumental, construído no início do século XVI, mas também para o estudo da produção de azulejos em Aveiro.
Este trabalho arqueológico insere-se no projecto de reabilitação daqueles monumentos incluído pela Câmara Municipal de Aveiro no Parque da Sustentabilidade, do qual consta a reabilitação do edificado (coberturas, fundações, entre outras estruturas) e restauro das obras de arte (talha dourada, azulejos, pinturas murais, telas e esculturas).
Paulo Morgado, geólogo e geoarqueólogo responsável e coordenador geral da intervenção, sublinha que “este projecto do estudo arqueológico começou com uma campanha de prospecção geofísica, que se realizou no espaço exterior fronteiro às igrejas e dentro dos próprios templos. Neste espaço traseiro não foi feita prospecção porque quando estivemos no terreno estava cheio de silvas e ervas o que impediu o nosso trabalho. O que fizemos foi localizar as áreas de sondagem ao solo na parte exterior, onde temos anomalias geofísicas, que temos de sondar para ver o que são”.
Nas traseiras das igrejas como não havia essa informação, a equipa de arqueólogos localizou os espaços onde seria mais interessante a obtenção de dados, pelo que as “escavações” estão a ser efectuadas em dois locais distintos, de cada lado da capela-mor da Igreja de Santo António, junto às respectivas paredes, de modo a perceber os caboucos de fundação e como era a ligação entre a estratigrafia e a parede.
No trabalho já efectuado, o arqueólogo Ricardo Silva, director técnico e científico pela intervenção arqueológica, realça que “encontrámos a vala de fundação da própria sapata, com material que nos vai indicar, de forma mais precisa, a data da construção desta igreja, e que nos permite ver as diferenças de construção da própria sapata e, para além disso, foi descoberta uma fossa em negativo, escavada no substrato geológico, que se encontrava atulhada de material possivelmente anterior à construção da Igreja de Santo António”.
O arqueólogo explica como vai prosseguir a investigação: “Estamos ainda numa fase de trabalho de campo. Depois, irá decorrer o trabalho de gabinete, com lavagem e estudo dos materiais que foram exumados. Só depois podemos datar e investigar esses achados”. Dentro dos templos não houve intervenção arqueológica clássica, com “escavação”. No adro fronteiro das igrejas também irá haver intervenção arqueológica, prevendo-se escavar um espaço adjacente à entrada do Igreja de Santo António, uma vez que as sondagens geofísicas mostram a possibilidade de aí haver um conjunto de sepulturas.
Cardoso Ferreira
Arqueologia de arquitectura
Este trabalho arqueológico inclui não só “escavações” ou “arqueologia de quota negativa”, mas também “arqueologia da arquitectura”, ou seja, sondagens feitas às paredes, para ler o que está escondido atrás das argamassas. “Isso vai permitir-nos reconstituir a história da evolução do edificado”, diz Paulo Morgado, explicando que este processo baseia-se na abertura de “janelas” para se analisar o tipo de construção, os materiais usados, eventuais intervenções anteriores e outros dados relevantes sobre os próprios edifícios.
Paulo Morgado nota que a “arqueologia da arquitectura” permite “abrir janelas para o passado e ver o que aconteceu naquela parede ao longo dos tempos. Muitas vezes, encontramos antigas janelas e portas perfeitamente entaipadas, anulação de espaços, antigos postigos”.
“Já temos bons achados”
Ricardo Silva afirma que já há “bons achados”, os quais “podem dar pormenores da construção do edifício e também sobre a própria cultura das pessoas que viviam em Aveiro a partir do século XVI”. “Através dos materiais cerâmicos que exumamos podemos ver as relações que essas pessoas teriam com outras de localidades vizinhas ou até mais longínquas”, adianta.
Dos achados, Paulo Morgado destaca instrumentos em pedra e em metal, dois alfinetes, um anel em bronze, mas a grande maioria são materiais cerâmicos. “Dependendo do contexto, temos materiais distintos. No contexto mais antigo, que eu interpreto como remontando ao período da construção do próprio convento de Santo António, temos materiais coevos dos séculos XVI e XVII. Aí temos materiais de construção, mas também temos materiais de utilização comum, nomeadamente de cozinha, o que nos indica que aqui existiu uma comunidade que se alimentava neste sítio. Temos fragmentos de caçoilas, de bilhas, de pratos, de potes, entre outros”
Dos materiais de construção, que remontam ao século XVI, Paulo Morgado destaca “pelo seu valor extraordinário, um azulejo que interpretamos como sendo uma produção de Aveiro, ou uma proto-produção ou tentativa de produção de azulejos em Aveiro, com técnicas de produção semelhantes aos típicos azulejos desse período, designados por sevilhanos ou hispano-árabes, com aresta, mas muito tosco. Nessa altura já se produziam azulejos muito bons. A ser uma produção de Aveiro, é uma tentativa de produção, em que o azulejo tem defeitos, tem pingos de vidrado. Os buracos das trempes estão muito bem vincados. Mas dá-nos a informação que houve a tentativa ou mesmo a produção de azulejos em Aveiro ainda no século XVI”.
