Novas luzes sobre o grande vulto que foi Mário Sacramento

“Mário Sacramento, vida e pensamento. Sementes de Liberdade”. Tese de doutoramento defendida em França deu origem a livro sobre o aveirense.

O “Diário” de Mário Sacramento é “uma das obras de maior amargura histórica do século XX”, comentou António Pedro Pita, da Universidade de Coimbra, ao apresentar a obra de Eunice Malaquias Vouillot, “Mário Sacramento, vida e pensamento. Sementes de Liberdade”, adaptada da sua tese de doutoramento, defendida na Sorbonne, Universidade de Paris, em 2002. No dizer do professor catedrático da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, o percurso de Mário Sacramento deve ser lido e elucidado pelo seu “Diário”, “um percurso compulsivo, violento, trágico, amargo.” Aí lê-se um autor cuja autoconsciência o sentia destinado à criação literária, mas que foi conduzido à actividade médica e ao ensaísmo por variadas circunstâncias.

António Pedro Pita categorizou os livros, dizendo que “há livros que lemos e… pronto; há livros que lemos e que sentimos que aprendemos; e há livros que nos apetece continuar.” É o caso deste sobre Mário Sacramento. Que núcleos problemáticos se distinguem na sua obra, que obsessões alimentaram o médico ensaísta e o fizeram produzir uma obra tão rica como a que nos legou? Foi este o diálogo que o professor de Coimbra encetou com a obra de Eunice M. Vouillot, em que são publicados alguns textos de Mário Sacramento já conhecidos, mas outros ainda inéditos.

Para o estudo da obra de Mário Sacramento, Eunice Vouillot contou com a colaboração da viúva, Cecília Sacramento, entretanto falecida, e da filha, Clara Sacramento, que assistiu à sessão de lançamento organizada pela Associação Promotora do Museu do Neo-Realismo e pela Câmara Municipal de Aveiro, na Biblioteca Municipal, no dia 12 de Julho.

Após considerar que esta obra, que vem a lume pela editora Campo da Comunicação, apresenta uma revisão meticulosa do itinerário intelectual de Mário Sacramento, o orador desafiou o meio cultural e político português: como é que o debate entre marxistas e católicos equacionou as relações entre a existência e a transcendência? Por que é que Mário Sacramento se dedicou ao estudo da ironia e a determinados autores? Como é que se percebe que a estética da ironia é o eixo da sua obra? Como se irá comportar o meio cultural, político e artístico com a publicação desta obra “Mário Sacramento, vida e pensamento Sementes de Liberdade”, que vem restituir Mário Sacramento ao debate e à reflexão, perguntou.

António Pedro Pita rematou, afirmando que, apesar da conhecida dimensão política de Mário Sacramento, “o que sabemos é superficial e o que não sabemos é essencial”.

Teresa Correia

Homem interventivo e solidário

Mário Emílio de Morais Sacramento nasceu em Ílhavo, a 7 de Julho de 1920, e faleceu aos 49 anos. Exerceu medicina, de maneira solícita para com os mais pobres; dedicou-se ao ensaísmo, divulgando a estética da ironia em Eça de Queirós e analisando vários autores do neo-realismo português. Militante do Partido Comunista Português, esteve preso durante o regime de Salazar e desempenhou um papel decisivo, em 1957, na organização do I Congresso Republicano, que teve lugar em Aveiro. Apesar de ter colaborado na preparação do II Congresso Republicano, também realizado em Aveiro no mês de Maio de 1969, não pôde participar, pois a sua morte ocorreu em Março desse ano.

É dele o famoso “Frátria – Diálogo com os católicos ou talvez não”, prefaciado pelo Padre Filipe Rocha (Aveiro) e que pode ser consultado na Biblioteca Municipal de Aveiro. Mário Sacramento dá nome a uma avenida de Ílhavo e a uma rua de Aveiro. Nesta cidade é patrono de uma escola secundária.