Poço de Jacob – 87 No seguimento do assunto “Fátima e a moda” (ver texto da semana passada), convém também analisar o sentido bíblico do vestir do ser humano. Verdadeiramente, somos as únicas criaturas que escondemos a nossa nudez.
Ainda que os movimentos nudistas aleguem que tudo é natural, e, de facto, o corpo, criado amorosamente por Deus, é belo, todo ele, o ser humano não fica de um modo natural diante da nudez. Tal pode acontecer em determinadas fases da vida, sobretudo na juventude ou no entusiasmo de um ideal ou ideologia, mas a condição humana, ferida pelo pecado original, não se sente absolutamente bem diante da nudez. A inteligência do ser humano, muitas vezes obscurecida pela paixão e concupiscência, reage em forma de repulsa ou atracção diante da nudez. De facto, a Bíblia diz que o homem começou a vestir-se quando, depois de desobedecer a Deus, viu que estava nu. A nudez adquiriu malícia e a atracção sexual tornou-se escravatura interior e exterior em muitos casos. A roupa tornou-se o modo de o ser humano se apresentar ao mundo.
No fundo, muitas vezes, a primeira impressão de alguém, certa ou errada, vem-nos pelo modo como se veste, entre outras coisas. O homem vê a aparência e não o coração… Na Bíblia, a veste confere dignidade ao homem. Ela situa-se numa relação directa com a forma de agir e sobre o que pensamos sobre nós mesmos. As vestes de Adão e Eva foram associadas ao pecado, à vergonha, ao pudor. “Viram que estavam nus” é mais do que constatar que estavam sem roupa. Estavam despidos de princípios que lhes conferissem dignidade.
“Cobrir-se diante de Deus” aparece na Bíblia como manifestação de uma culpa. Um desejo de esconder o nosso pecado para Ele não nos repreender, como fez Caim depois de ter matado Abel… “Cobrir o corpo com sacos e cinza” aparece na Bíblia como desejo de expiar o mal cometido.
A Moisés, Deus pediu que elaborasse vestes especiais para o seu irmão Aarão, sacerdote, o que lhe conferia simbolicamente uma ligação à Aliança que Deus estabeleceu com o seu povo. O vestir já não era para tapar a nudez ou, simbolicamente, para esconder a culpa, mas se tratava de um revestimento novo, um homem novo num povo renovado pela Aliança.
É só com Jesus Cristo, nascido e morto nu, desnudado diante dos soldados e com a veste posta à sorte, que o sentido do vestir adquire o mais alto grau do seu significado. Já não se trata de se revestir de um homem novo, apenas, nem de se humilhar diante da culpa que nudez ensanguentada do Senhor veio curar, mas de se deixar revestir totalmente do próprio Cristo. É, como diz S. Paulo, deixar Cristo viver em nós, e deixar o vestido velho e, mais que um remendo novo, sermos vestido novo, confeccionado nas águas do Baptismo. Daí o significado da veste branca que a madrinha leva no dia do Baptismo. Também o vestido de noiva, que é branco não por causa da virgindade da noiva, coisa cada vez mais rara, hoje em dia, mas por ela representar a igreja que comparece de veste branca diante do seu esposo que é Cristo. Essa veste branca do baptizando e da noiva um dia será a mortalha que envolverá o nosso corpo, morto, mas nem por isso menos digno, que será relíquia sagrada, no cemitério, do santo, que seremos nós, que espera ressuscitar de entre os mortos. A veste é Cristo. É símbolo da alma bafejada e possuída pela graça de Deus. Por isso, cada um veste-se do modo que quer mostrar a dignidade que julga possuir segundo o conceito bíblico do vestir.
Mesmo o sacerdote e a religiosa, com vestes especiais – gesto que é hoje também cada vez mais valorizado pelas novas gerações de consagrados -, mostram ao mundo a sua disponibilidade para servir e sobretudo o Amor que levam dentro do peito, para que, como diz o profeta Zacarias, as pessoas que nos vêem puxem do nosso hábito e digam: “Diz-me onde moras, pois ouvi dizer e me parece que Deus habita em tua casa”.
P.e Vitor Espadilha
