A Árvore de Zaqueu Quantas vezes ocupamos reuniões a dramatizar «queixinhas», em vez de discutir a razão e o remédio possível? E quantas vezes não atiramos as culpas só para os outros ou para Deus – a quem não deixamos de correr para «fazer queixinhas»?
As leituras de hoje falam disso, abordando o delicado tema da denúncia.
No domingo passado, ao profeta Jeremias faltava-lhe a coragem de enfrentar a opinião pública, porque o que tinha a dizer era desagradável. Mas… e se a sociedade sofre as consequências nefastas de não ter sido advertida corajosamente? A 1.ª leitura de hoje é inequívoca: toda a sociedade sofrerá, porque Deus não anda por aí a remendar as nossas asneiras, mas pedirá contas, severamente, a quem ao menos podia advertir e sugerir – e não o fez.
Mateus, com o seu espírito de organizador das primeiras comunidades cristãs, desenvolve, baseado na cultura judaica a que pertencia, o princípio da correcção fraterna. A forma simples é dada por Lucas (17, 3): «Se o teu irmão te ofender, repreende-o; e se ele se arrepender, perdoa-lhe» (diz mesmo que devemos perdoar sempre, utilizando o simbolismo do número sete). E Mateus (18,21-35) continua o evangelho de hoje com a parábola do servo impiedoso, castigado por não querer perdoar ao seu colega de trabalho. É preciso perdoar «setenta vezes sete vezes».
Porém, o cristianismo não pode ser um olhar permissivo sobre os defeitos de que enferma a sociedade, alegando que todos somos vítimas de maus ambientes. Há de facto erros no sistema social – que devem ser eliminados, sendo por vezes imperioso substituir todo o sistema. Mas cada qual é responsável pelas suas acções, e o erro de muitos agentes transforma um sistema bom em mau.
(As cartas de S. Paulo revelam a condenação enérgica de cristãos só de nome, de comportamento social reprovável ou de pensamento incompatível com a mensagem de Jesus Cristo, como no capítulo 5 da 1.ª Carta aos Coríntios).
Como a verdade não é monopólio de ninguém e não podemos julgar ingenuamente, S. Mateus, em caso de sério confronto entre indivíduos ou grupos, sublinha a necessidade de uma discussão a nível comunitário, para que não degenere em conflito pessoal. É assim enaltecida a função das comunidades locais: unir a terra e o céu, trabalhar de tal modo na terra que o «reino de Deus» deixe de ser uma miragem.
Mas nem a comunidade está a salvo da perversão ou corrupção. Muito facilmente, deixamo-nos levar por quem fala melhor ou por quem promete mais coisas agradáveis… ou simplesmente por quem tem mais força. Por isso, a 2.ª leitura leva-nos ao cerne da questão: basta amar, porque o amor luta contra tudo o que é mal.
Ora o amor não pode ser regulamentado – actua como um guião a orientar os nossos «desenrascanços»… (a contraproducente obsessão com o «pecado sexual» terá resultado de falta de coragem para aprofundar e defender o que é o amor).
O amor é constante. Mas a constância, sem amor, é perversa e cruel: não quer ouvir os outros, talvez com medo de se ver obrigada a corrigir o próprio caminho. Ora só ouve bem os outros quem ama os outros – é capaz de ouvir mesmo aquilo que é amargo e esforça-se por penetrar o mais possível no ponto de vista do outro. Por outro lado, não tem medo de argumentar sobre o que será mais perfeito, de apresentar opiniões contrárias e discuti-las publicamente. E aceita até os erros próprios e o possível falhanço – guardando sempre a esperança de que «a verdade nos liberta».
A comunidade cristã encontra-se em união com Deus, quando procura o que é mais certo e não foge à responsabilidade de discutir o que chamamos moral social e como devemos eliminar as razões das nossas queixas.
O texto do evangelho pode favorecer a ideia incorrecta de que Deus satisfaz todos os pedidos feitos «em grupo». O contexto, porém, aponta para outro sentido: Deus encontra-se e dá a sua força onde se procura a harmonia entre os seres humanos.
Manuel Alte da Veiga
m.alteveiga@netcabo.pt
