De castigo a colaboração com Deus

A “Laborem exercens” foi publicada no dia 14 de Setembro de 1981. Reflexão nos 30 anos da encíclica de João Paulo II sobre o trabalho humano.

Há dias o jornal “i” perguntava ao empresário Peter Villax, líder de uma importante empresa portuguesa do sector da saúde, se é possível aumentar o número de horas de trabalho. O empresário respondeu: “Não! Nós, por questões religiosas, não gostamos de trabalho. O trabalho foi o castigo por Adão e Eva terem cometido o pecado original. Hoje, o discurso extremou-se e o castigo tem que ser redimido com direitos e regalias sociais. Mas existe numa grande parte da nossa sociedade a ideia de que trabalhar, o menos possível! Safar-me ao trabalho, sempre que possa. O trabalho liberta-nos da pobreza!”

Sem dúvida, o trabalho tira-nos da pobreza. Mas o resto baseia-se no velho preconceito de que o trabalho é um castigo do pecado original, mesmo que hoje os teólogos discutam o tal pecado. A ordem divina de trabalhar (“cultivar o jardim”) é anterior ao pecado de Adão e Eva. Eu diria antes: Nós, por questões religiosas, gostamos de trabalho.

A encíclica “Laborem excercens”, de João Paulo II, sobre o trabalho humano, publicada faz hoje 30 anos (14 de Setembro de 1981) lembra precisamente que o trabalho, longe de ser um castigo, embora por vezes implique suor e cansaço, é uma forma de colaboração com Deus. Claro que o trabalho mais mental também é trabalho, mas João Paulo II sabia do que falava por experiência própria, pois trabalhara numa fábrica da Solvay (indústria química e farmacêutica).

Num livro recente, o filósofo Alain de Botton, muito na moda, insiste que para os cristãos “as agruras do trabalho constituíam os meios apropriados e imutáveis para se expiarem os pecados de Adão”.

Na realidade, o cristianismo mudou claramente o modo de pensar sobre o trabalho, ao contrário dos filósofos gregos, que consideravam o trabalho manual próprio dos escravos, enquanto os cidadãos deviam dedicar-se ao pensamento e, quando muito, ao comércio. Os maiores protagonistas do cristianismo nascente foram trabalhadores e não intelectuais. Os exemplos mais evidentes são os de Jesus Cristo, Pedro e Paulo. Jesus foi carpinteiro. Pedro e mais alguns apóstolos eram pescadores. Paulo exortou que é preciso trabalhar para não furtar e poder partilhar (Ef 4,28) e denunciou que quem não trabalha também não deve comer (2 Ts 3,10). Embora reconhecesse que o pregador tinha direito ao sustento, como grego que também era, optou por não dar esse peso às comunidades, e foi fabricante de tendas (Act 18,3).

Esta maneira de pensar cristã levou, a longo prazo, à abolição da escravatura (não é por acaso que acontece em contexto cristão e liderada por pessoas com motivações de fé). Os Padres da Igreja consideravam que o opus servile (trabalho servil) era simplesmente opus humanum (trabalho humano) (n.º 265 do Compêndio de Doutrina Social da Igreja). São João Crisóstomo (349-407) dizia que o ócio é nocivo ao ser humano, enquanto a actividade favorece o seu corpo e o seu espírito. Ambrósio de Milão (340-397) dizia que cada trabalhador é a mão de Cristo que continua a criar e a fazer o bem. Bento de Núrsia (480-557) escolhe para lema da comunidade que funda ora et labora, “reza e trabalha”. É este lema, espalhado através das abadias beneditinas, que transforma a face da Europa, porque abençoa a actividade humana.

Escreve Thomas E. Woods Jr. (“O que a civilização deve à Igreja Católica”, ed. Alêtheia), exemplificando a mudança de mentalidade que os beneditinos introduziram no continente europeu: “O papa São Gregório Magno (590-604) conta-nos uma história significativa acerca do abade Equício, um missionário do século VI de notável eloquência. Chegou ao mosteiro de Equício um enviado papal, que se dirigiu imediatamente ao scriptorium para falar com ele, pois esperava encontrá-lo entre os copistas. Mas o abade não estava ali; como lhe explicaram os caligrafistas, com toda a simplicidade: «Está lá em baixo, no vale, a cortar feno»”.

Nestes tempos instáveis, de volatilidade financeira e altas taxas de desemprego, vale a pena regressar ao documento publicado há 30 anos, que começa assim: “Mediante o trabalho deve o ser humano ganhar o pão de cada dia, contribuir para o progresso da ciência e da técnica, e sobretudo para a incessante elevação cultural e moral da sociedade, na qual vive em comunidade com os outros irmãos”.

Jorge Pires Ferreira