Cinco motivos para não rezar (2.ª parte)

Na semana passada:

1. “Rezar é cansativo”

2. “Não tenho tempo”

3. “Distraio-me muito”

4. “Não sou constante”

Todos sentem períodos de aridez, em que não se consegue rezar, em que predomina a sensação de que a oração é impossível. Por outro lado, o mito do “fazer experiência” leva a que tudo seja a curto prazo e mais motiva a inconstância, impedindo o enraizar-se numa “história com o Senhor, uma história fiel e capaz de perdurar no tempo”.

A inconstância manifesta-se no recorrer a Deus só na necessidade, no tentar o diálogo só quando se sofre de solidão ou de angústia, no ter Deus em conta só quando se vive uma situação poética ou estética gratificante.

Na realidade, o cristão não pode ser o “homem de um momento, sem raiz em si mesmo, partido entre um passado que lamenta, um presente a que não sabe aderir e um futuro que não sabe projectar”. É preciso perseverança, muita paciência consigo mesmo e muita disciplina e ascese. Mesmo quando não se consegue rezar, “é preciso continuar a oferecer, juntamente com a aridez do coração, a presença do próprio corpo, sem vez e rebelde à fadiga da oração”.

5. “Trabalhar já é rezar”

Se há equivalência entre trabalhar e rezar, como por vezes se diz, porque é que são muito os dispostos a trabalhar e tão poucos os dispostos a rezar? O trabalho é desculpa para não se rezar.

Não se deve delegar a oração nos monges, nos solitários contemplativos, nas ordens de vida reclusa. E mesmo haja quem procure a Deus na oração para escapar do trabalho, da dureza da vida fraterna, das responsabilidades comuns, a verdadeira oração é a que leva ao compromisso. Neste sentido, em vez de “trabalhar é rezar” devemos pensar antes que “rezar é trabalhar”.

“Para o cristão, trabalhar sem que o esforço seja regado pela oração é realizar uma actividade sem peso espiritual, uma actividade pronta a degenerar em activismo estéril e por vezes até em acção insensata, enquanto não gerada pela paz, não radicada no fundo do coração, não orientada segundo a vontade de Deus. Quem não conhece o rosto de Deus na oração dificilmente o reconhecerá quando na acção esse rosto se lhe mostrará mediante o das vítimas e dos humilhados”.

A oração “pode dar sentido a toda a nossa acção na companhia dos homens”.

Este texto foi adaptado das páginas 96 a 107 de “Porque rezar, como rezar”, de Enzo Bianchi (ed. Paulus). Tendo consciência dos motivos pessoais que habitualmente são apontados para não rezar, cada um poderá prosseguir com mais determinação na sua caminhada espiritual. A oração, diz Bianchi, é o nosso desejo de amor.

J.P.F.