Livro Um Mundo sem Deus. Ensaios sobre o Ateísmo
Michael Martin (dir.)
Edições 70
424 páginas
Pode um jornal da Igreja católica apresentar um livro que tem como finalidade uma aproximação que se quer séria, não panfletária, ao ateísmo? Pode e deve, se tivermos em conta a velha recomendação da 1.ª Carta de Pedro: “[Estai] sempre dispostos a dar a razão da vossa esperança a todo aquele que vo-la peça”.
Sem dúvida que o cristianismo, hoje como ontem, tem uma dimensão apologética. É preciso mostrar e defender que podemos acreditar em algo e Alguém que está para lá da razão e que isso não é irracional, nem obsoleto nem prejudicial, como alguns pretendem fazer crer. Mas se em gerações passadas o ateu tinha de apresentar as razões da sua descrença, pois era a excepção no meio da regra, hoje, em meios progressivamente agnósticos e indiferentes, é ao crente que é pedida a justificação.
Este livro reúne 18 ensaios escritos por especialistas de renome de língua inglesa. O ateísmo é abordado do ponto de vista histórico, psicológico, sociológico e filosófico. Há espaço para os argumentos teístas da existência de Deus, mas o pano de fundo é, sem dúvida, a defesa do ateísmo. E com esta hipótese da não existência de Deus (será sempre hipótese e, como como escreveu Joseph Ratzinger num livro de 1968, quem quiser fugir das incertezas da fé terá sempre de suportar as incertezas da ausência de fé), veiculam-se outras que sem dúvida são polémicas e, tanto quanto se pode observar, não estão a ter suficiente debate nos meios católicos ou, pelo menos, nas faculdades, que disso têm obrigação. Algumas delas: ser feminista exige que se seja ateia; os ateus são mais evoluídos dos que os crentes; os ateus são menos sugestionáveis, menos dogmáticos e menos preconceituosos do que os crentes; os ateus são mais tolerantes, obedientes à lei, compassivos e conscienciosos. Em suma, escreve-se na introdução geral, os ateus “são bons vizinhos”.
Não duvido que sejam. Porém, um dos erros que perpassa por muitos dos artigos consiste em pôr todas as religiões e fés no mesmo saco, como se a fé crítica ou de doação ao outro equivalesse ao fundamentalismo ingénuo – e por vezes perigoso.
Esta obra, em parte, é fruto do ressurgir da questão de Deus nas universidades laicas inglesas e dos EUA. Deus (ou a sua negação) não será só uma questão de argumentos e debates. É também de vivência do dia-a-dia, de beleza, de ritos, de convicções não teorizáveis, de doação. Mas se os crentes não estão presentes no debate sobre Deus, quem vai estar? Perde-se por falta de comparência?
J.P.F.
