Poço de Jacob – 100 Há uma lenda da Roma Imperial que nos enche de encanto e se tornou santuário mariano, um dos mais belos da cidade das mil igrejas, a Cidade Eterna. Diz a lenda que, no tempo do imperador Augusto, poucos anos antes do nascimento de Cristo, a Sibila, mulher adivinha qual sacerdotisa, teria dito ao Imperador que nasceria o Filho de Deus, ainda no seu governo, em algum canto do seu império. A ânsia pela vinda do salvador encontramo-la em Virgílio, poeta romano, e noutros povos. Ela está gravada no íntimo do coração humano. A história da humanidade e das civilizações não é alheia a esta realidade que trazemos connosco.

Diz-se que o imperador mandou construir, num templo, bem na colina do Capitólio, onde estava o governo de Roma, um altar que ainda hoje existe, dedicado ao Filho de Deus. Chamou-se Aracoeli a esse altar. O altar do céu. Perto dele temos o famoso Fórum Romano, no qual os soldados juravam fidelidade ao Imperador: “Os que estamos dispostos a morrer por ti te saudamos. Ave Cesar!”

Quando vou a Roma visito a Aracoeli. Ali se venera o túmulo de santa Helena, mãe de Constantino, mesmo por cima do dito altar… E a imagem do Menino Jesus, a mais importante de Roma, feita da madeira das oliveiras do Monte das Oliveiras de Jerusalém… Mas, diante desse monte, junto ao Palácio de Veneza, de onde Mussolini gostava de falar às multidões, está, quase escondida, uma belíssima Igreja. A de S. Marcos. Diz-se que foi ali que residiu o Evangelista e que ele teria aí escrito o seu Evangelho, que nos anima neste ano litúrgico B.

Mussolini sabia da Aracoeli. Por isso, para esconder o altar do Menino que ia nascer, qual Herodes do século XX, mandou construir nessa praça de Veneza um grande altar branco, lindo, sem dúvida, mas que eclipsou a singeleza da Igreja de Santa Maria em Aracoeli. Chamou ao seu monumento, imaginem, o Altar da Pátria.

Muita gente que vai a Roma vê esse monumento gigantesco… Mas não sabe que ali atrás está o Altar do Céu.

Quando passeio por ali, gosto de imaginar Roma no tempo de S. Marcos. É só imaginação, mas não deixa de ser interessante. Marcos quer mostrar no seu Evangelho que Jesus é o Filho de Deus. Escreve-o para os romanos. Estaria ali, na sua casa, com o Capitólio bem diante de si. Lá no Capitólio, o templo com o Altar do Céu, do Filho de Deus, lá dentro… Todo o seu Evangelho é um suspense através do qual o segredo messiânico, as admirações sucessivas sobre a pessoa e obras de Jesus, as perguntas sobre quem é Ele, levam o leitor a confrontar-se com um sim ou um não a Jesus Cristo, e perguntarmo-nos “quem é Ele realmente para mim”, até que um centurião romano acaba por confessar: “Este é verdadeiramente o Filho de Deus”. E S. Marcos dá por concluída a sua aventura.

Penso, ali, que ele, por vezes, interrompia a sua escrita para olhar para o Capitólio e ali adorar o verdadeiro Filho de Deus, cujo altar já existia mesmo antes de Jesus ter nascido.

Não posso assegurar… mas não deixaria de ser interessante, e que não me crucifiquem os entendidos da Bíblia, afirmar que toda a força temática do seu Evangelho, bem poderia ter S. Marcos tê-la bebido desse Altar, ali, diante de sua casa, naquela Roma para quem ele escrevia, para aqueles soldados do juramento a Cesar, que acabam por ser, no seu livro, os que confessam, para nós e connosco, diante do Altar do Céu, que Jesus é o Filho de Deus.

Vitor Espadilha