Poço de Jacob – 94 Era o seu nome. Simplesmente Anna. Mãe de um sacerdote que serviu durante mais de 13 anos a Diocese de Aveiro e que regressará para Portugal um dia. Morreu numa manhã gélida de domingo. Lá fora o termómetro marcava 17 graus negativos. A sua alma subia para o Grande Sol que ela amou durante os 78 anos da sua vida. Dizia que tinha a doença do seu amado Papa João Paulo II, natural da sua Cracóvia. Também ela nascera nesta região.

Viveu a invasão do nazismo no seu país. Era pequena. Mas já trabalhava nos campos. O seu pai foi levado para para Auschwitz, onde morreu na câmara de gás. Para a viúva só enviaram um sapato. Não eram judeus, mas havia dias em que os soldados gostavam de brincar a dizimar as famílias polacas. Hoje, naquela deslumbrante paisagem do sul de Cracóvia, custa imaginar tantos gritos de dor. O campo de extermínio não ficava longe. O comunismo chegou e expulsou os alemães da antiga Prússia. Os polacos regressaram à região, chamada Silésia. Tinham de ocupar as casas e as terras devolutas que passavam sucessivamente de polacos para alemães e vice-versa. Para aí foi Anna, já casada, e aí nasceram os seus dois filhos. Viveu com restrições e luta. Nunca fome. Mas trabalhava-se muito. Havia festa quando, uma vez por ano, se conseguia comprar uma laranja, que logo seria bolo de laranja para toda a família comer a laranja. Até as cascas se aproveitavam. O regime da época permitia uma vida sossegada.

A fé era imensa. Não havia certas liberdades, mas a escravidão era menor do que a que vemos hoje nos homens presos ao consumismo que invadiu a Polónia livre. Os filhos tinham escola, curso de teatro, possibilidade de entrar na universidade. A sua família tinha casa e campos para o sustento. Não havia supermercados, nem refrigerantes, mas as dispensas enchiam-se no verão com compotas feitas para o inverno. A família reunia-se para a missa de domingo. De tarde, a mãe tinha sempre um bolo para animar a festa de uma família que vivia o dia do Senhor conversando e passeando de bicicleta pelos campos.

O filho mais velho ordenou-se sacerdote. A mãe Anna ajudava nas despesas da paróquia, muito pobre, pois não havia salário para padres nem subsídios para obras de igreja. O filho quis ser missionário. A mãe Anna sofreu, mas apoiou, e, silenciosa, desfiava seu terço pelo êxito pastoral de seu missionário nos Andes do Peru, de onde veio doente, quase a morrer… na Venezuela, no Porto Rico, e em Portugal.

Nos seus lábios, sempre um sorriso. Para cada filho uma mão estendida. Casou o outro. Abrigou-os em sua casa. Ensinou a nora a cozinhar, pois era muito nova. Acolheu cada neto como um dom. Nunca entendeu que os homens tivessem de ser maus: os que mataram seu pai; os que controlavam a agricultura do seu filho mais novo, por vezes com certa tirania, diante da qual todos se calavam; ou os que perseguiam o seu filho padre e missionário; não entendia que houvesse problemas em sua casa. Como mãe, tudo tentava conciliar. Assim são as verdadeiras mães, e em Anna eu vejo a minha mãe e a de todos os nossos queridos sacerdotes. A doença foi fazendo nela um lento processo “kenótico”. Encontrou refúgio na oração e no seu rosário adquirido em Fátima, o qual quis levar com ela no caixão. Companheiro inseparável de alegrias e tristezas…

Uma vida igual a tantas, mas mais uma vida de “fiat” permanente, que fez de seu funeral, cheio de padres e pessoas agradecidas, uma celebração de louvor a Deus. A mãe Anna partiu… e juntou-se ao coro das mães de padres e bispos, a maioria saída do meio do povo simples, o que não as impediu de passarem para os seus filhos, padres, ou não, a sabedoria da vida e da fé.

Uma homenagem para mãe Anna, que adorava visitar Aveiro e que levou Portugal bem gravado no seu coração. Nela, uma homenagem carinhosa para as mães dos nossos padres e bispos, e um pedido a Deus de bênçãos para as suas vidas e que, no Céu, gozem da Vida de Amor, que tão bem nos souberam legar como herança.

Vitor Espadilha