A época dos safaris

A Árvore de Zaqueu Rude ou suave, acolhedora ou destruidora, a natureza foi desde sempre um meio privilegiado para o enriquecimento da experiência religiosa. A 1.ª leitura é um exemplo de como os antepassados do povo judeu sentiam Deus a interpelar a Humanidade através de todos os fenómenos, dos mais agradáveis aos mais catastróficos.

O célebre «dilúvio universal» foi interpretado como castigo, como se Deus se tivesse arrependido de ter criado a Humanidade – de tal modo prevalecia a injustiça. Porém, mesmo nessa história antiga, Deus reconhece a força do Bem, por mais escondido que pareça dentro de nós e na organização social, e declara solenemente que criou o Homem para existir para sempre. O anel do seu juramento, ou «Arco da Aliança», até pode ser visto sempre que o sol vence o mau tempo – como também pode ser visto após as nossas tempestades de amores e de ódios…

A cultura judaica, não obstante o pessimismo de várias passagens bíblicas, percebeu que o Homem existe para ser feliz.

S. Pedro deve ter sentido o «silêncio de Deus», com a morte do seu Mestre. Ficou destroçado pelo trágico fim de uma aventura empolgante. Pouco a pouco, porém, descobriu o «arco da aliança» sobre a morte e o medo, descobriu o Espírito de Deus que sabe «escrever direito por linhas tortas» e que nos ensina a decifrar essas linhas, se quisermos aprender.

Pedro deixou uma forte impressão nas primeiras comunidades cristãs. O temperamento arrebatado, falhas na firmeza da fé, no pensamento crítico e acção consequente… – até dava conforto ver os defeitos do 1.º líder da Igreja! Eram muito influenciados pelo espírito de Pedro, os cultos autores das duas cartas que lhe são tradicionalmente atribuídas (a 1.ª carta será posterior ao ano 70, e a 2.ª carta é o texto mais tardio do Novo Testamento, talvez já do início do séc. II).

S. Pedro não deixou morrer o desejo de sabedoria com que seguia Jesus: e o Espírito da Sabedoria (ou Espírito Santo – são tudo expressões diferentes do modo como Deus está connosco) ensinou-o a ver Vida onde lera morte, a ver uma missão estimulante e incansável pelos tempos fora onde lera um fim trágico; ensinou-o a ver o mesmo Deus dos tempos de Noé, que se revelou especialmente nesse filho de um carpinteiro, e a tirar lições ao longo do tempo – porque o mais importante é o sentido que damos às coisas. Cabe-nos a nós escolher «o compromisso de uma boa consciência» (2.ª leitura).

No evangelho segundo Marcos, o mais primitivo, vemos como a Sabedoria ensinou aos evangelistas a importância do deserto na formação humana – e como Jesus sentiu a necessidade desse «safari» para vencer os desafios futuros.

No deserto, a vida é dura e estamos expostos aos perigos dos elementos, das feras e do tropel das ideias, sonhos e desejos. Na história dos símbolos, o deserto é o vazio no qual podemos encontrar a realidade única. Porque é estéril, sentimos melhor a nossa presença e a de Deus. Porque é hostil, sentimos melhor a nossa força e a de Deus. Porque tem miragens, ensina-nos a ser prudentes. No deserto, podemos encontrar o equilíbrio ou harmonia entre as nossas limitações humanas e a imensidão do projecto de vida que espera por nós.

O tempo da Quaresma convida ao esforço para criarmos pequeninos desertos ao longo do dia, onde aprendemos a discernir o que é fundamental. Quando deixamos que Deus nos leve ao deserto é para nos ensinar o que é a Paz e qual a melhor estratégia para a construir, tendo presente que a Paz é fruto da Justiça. O Espírito da Sabedoria (ou Espírito de Deus) delicia-se em estar com os seres humanos (Livro da Sabedoria 1-9). É por esse Espírito que Jesus humilhado e crucificado está vivo como Deus é vivo, inspirando a expansão contínua do «reino de justiça» (o «reino de Deus») como fundamento sólido sobre o qual construímos a esperança que enche de sentido a nossa vida.

São duros os safaris no deserto. E são duros os desertos da vida. Mas se vivermos o tempo do deserto com espírito aventureiro, encontramos não o tempo esfacelado dos relógios mas a solidez do «tempo sem tempo» que sustenta o universo; o tempo de uma visão sem obstáculos, onde o «sopro de Deus» corre livremente e nos convida a libertar a nossa energia e sabedoria, sem cair nas áridas planuras de calhaus sinistros de arestas agudas ou na voracidade das areias movediças.

Manuel Alte da Veiga

m.alteveiga@netcabo.pt

(Este texto não segue o novo Acordo Ortográfico)