A Páscoa é sempre «pagã»

A Árvore de Zaqueu Mesmo com nuvens negras, é sempre um dia bonito. E ninguém acompanha a cruz engalanada sem sentir o cheiro a vida, a amizade, a saudade e a alegria.

Pagão é o habitante do «pagus» – «aldeia», em latim, por oposição à cultura citadina. O longínquo radical indo-europeu – «pak» – tem o sentido de «marco de terreno», de união, estabilidade e força, como se vê nos termos derivados «pau», «pacto», «paz» – e «página»: esse campo lavrado em esquadria, delimitado por «paus», e a que se assemelha uma folha escrita com as linhas como sulcos.

A Páscoa é sempre pagã

Porque nasce do campo,

com a força da primavera.

Porque cheira ao sol que brilha na chuva

E transforma a terra

em «páginas» cultivadas

Donde nascem os grandes livros

e pensamentos

E as cidades onde se firmam

os «pactos» num acto de «paz».

É a Páscoa dos «discípulos de Emaús»:

Afastavam-se de Jerusalém

lembrando esperanças perdidas.

Dói muito ver partir

quem caminha connosco de braço dado…

Mas guardavam de Jesus

uma imagem luminosa

Porque o seu agir e falar

apontavam para o futuro

Para melhor vida nas gerações

que ajudamos a crescer

Lembrando a mulher que

pelas dores de parto,

Exulta de alegria

por ter gerado uma vida nova (João 16,21).

Confusos como todos os discípulos

Não conseguiam abrir as «páginas»

da vida e das Escrituras

Onde veriam germinar

a árvore do «reino de Deus»

Sempre frondosa

junto à «fonte da água viva».

Quando as souberam ler?

– Pela simpatia de um desconhecido viajante…

Quem seria o simpático viajante (Lucas 24,17), o fugidio jardineiro (João 20,15), o amigo da praia (João 21,5), o pacificador das nossas escolhas (João 21,17), o instigador das nossas respostas (João 20,25)?

Após a morte de Jesus, cada evangelho trata à sua maneira o tempo e o espaço em que vários discípulos tiveram a experiência de que aquele Jesus dilacerado até à morte «não se encontra entre os mortos» mas já vive a vida de Deus (ressurreição e ascensão são duas maneiras de descrever a mesma «realidade»). Por isso, e porque na sua simplicidade se revelavam pessoas dignas de serem levadas a sério, não podiam traçar de Jesus uma imagem definida, mas sem o confundir com um fantasma ou morto-vivo. Tiveram a experiência de que este mundo passageiro tem uma dimensão não passageira; de que a tristeza e a morte são vencidas pela vida e alegria; e que podemos, desde já, acompanhar festivamente «a cruz engalanada» como quem vai pelos caminhos mais ou menos «pagãos», anunciando que estamos todos convidados para um banquete com um Pai «sempre na força da idade», onde só nos podemos sentir bem, «como em nossa casa».

Manuel Alte da Veiga

m.alteveiga@netcabo.pt

(Este texto não segue o novo Acordo Ortográfico)