Lectio Divina – 2 A lectio divina surge como método organizado por volta do ano 1200 d.C., quando o cartucho Guigo II escreve uma carta ao seu amigo monge Gervásio, com o título Scala Claustralium. Aí propõe quatro passos que funcionam como que um itinerário de leitura do texto bíblico e são eles a lectio, meditatio, oratio e contemplatio (leitura, meditação, oração e contemplação).
Apesar de encontrar nos primeiros séculos da Igreja a sua inspiração, sobretudo em alguns Padres da Igreja e nas comunidades cenobíticas, será sobretudo na Idade Média e nas comunidades monacais que se dá a sua grande força na Igreja. No entanto, este momento de grande ardor vai resultar também no seu progressivo desaparecimento, parecendo na Igreja novas práticas de oração mais metódica ou mental, de meditação mais psicológica e introspectiva. A teologia torna-se mais escolástica e especulativa perdendo a Palavra o seu lugar central e no ambiente popular dá-se mais valor a manifestações devocionais e à exemplaridade da vida dos santos. A lectio divina a partir do séc. XV não se perde totalmente (permanecendo em algumas comunidades religiosas monásticas), mas quase que desaparece da prática da Igreja.
O redescobrimento da lectio divina surge depois de uma série de movimentos abrirem o caminho, nomeadamente o retomar-se a Palavra de Deus como livro inspirado de referência, primeiramente em contexto protestante, e depois no meio católico. Todos os movimentos renovadores e depois o Concílio Vaticano II vieram dar um novo impulso à lectio divina, sendo esta aconselhada na Constituição Dei Verbum, nn. 24-25.
A redescoberta do primado da Palavra na vida da Igreja veio provocar um novo crescendo na vida da Igreja e a lectio divina surge como proposta à formação sacerdotal e religiosa, alimento importante da vida das comunidades religiosas, mas também como meio de preparação de momentos importantes da vida da Igreja e o Papa João Paulo II até a indicou como essencial à vida das comunidades cristãs e grupos eclesiais ao iniciar-se um novo milénio.
Recentemente, o Papa Bento XVI, na Exortação apostólica pós sinodal Verbum Domini, pede aos fiéis uma aproximação orante à Palavra de Deus, valorizando-se nesse sentido esta prática antiga da lectio divina.
Alguns autores, como Enzo Bianchi, o Cardeal Carlo Maria Martini, o biblista Carlos Mesters e o padre Bruno Secondin, têm sido de grande importância neste esforço por repropor a todos os fiéis a prática da lectio divina, evitando-se assim o perigo desta voltar a ficar fechada em contextos eclesiásticos e religiosos. Estes mesmos autores (e outros) têm tido a ousadia de reformular e atualizar o esquema clássico que nos vem desde há séculos, repropondo novos tempos, evitando-se correr o risco de um esquema rígido e obrigatório que por vezes pode afastar mais do que aproximar.
João Alves
