Em bicos de pés e de olhos em bico
Jorge Tavares da Silva e Zélia Breda (coordenadores)
Mare Liberum Editora
206 páginas
“Os meus alunos portugueses são uns «monstros» muito queridos. Estudam pouco, aliás muito pouco, sobretudo em comparação com a maioria dos alunos chineses, muito disciplinados, que passam os primeiros 20 anos da vida só a estudar sem fazer mais nada, como aliás aconteceu comigo. Estes jovens fazem quase tudo em cima do joelho, sem grande preocupação, e parece também que não têm quaisquer planos no que respeita ao futuro. Ora, aí está o típico espírito português – “depois logo se vê” – personificado na sua mocidade”.
Ran Mai, a autora das frases anteriores, nasceu em Xangai e é professora de Língua e Cultura Chinesa da Universidade de Aveiro (UA) desde setembro de 2003, pelo que já conhece bem os alunos portugueses e pode compará-los com os seus compatriotas: “Os alunos chineses são ensinados a absorver e organizar conhecimentos. Não podem chegar atrasados ou faltar às aulas sem justificação reconhecida pelo docente. E também não devem falar nem fazer perguntas na aula sem permissão do professor.” Os portugueses, porém, “são muito mais livres”, “gostam de exprimir as suas opiniões e fazer comentários acerca do tema”, o que “torna o ambiente de aula mais vivo”, e surpreendem os professores. Um exemplo: “Ensinaram-me gírias e ditos populares; corrigiram-me erros de português, apesar de muitos não saberem grande coisa da gramática portuguesa; e tentaram-me com palavrões portugueses para aprender alguns em chinês…” (pág. 40). Outro exemplo, agora pela mão de Wang Suoying, que chegou a verter para chinês os discursos dos ministros António Guterres e Mariano Gago, é coautora de um dicionário Chinês-Português e leciona na UA: “Em novembro de 2008, estive tão ocupada e preocupada que me esqueci completamente do aniversário do meu marido [invisual, também professor]. Estive fora todo o dia, mas ele foi recebendo telefonemas de «Parabéns». Dias depois, ao fim da tarde, quando chegámos para dar aulas a turmas diferentes, cerca de 70 alunos entraram todos numa sala com dois enormes bolos. Após um aluno ter feito um discurso em chinês, que se encontrava previamente escrito no quadro, todos começaram a cantar «Parabéns» ao meu marido. Os meus olhos ficaram humedecidos… Os alunos não são apenas alunos, são também amigos e quase que fazem parte da família” (pág. 92).
Este livro é composto por nove relatos de autores chineses sobre Portugal e os portugueses e outros nove de portugueses sobre a China e seus habitantes – “vivências e convivências interculturais”, como escrevem os coordenadores nas primeiras páginas. É uma obra curiosíssima e útil, quer pelo passado, pois há uma história de meio milénio que nos liga ao Império do Meio (Jorge Álvares, em 1513, foi o primeiro português e europeu a pôr os pés na China, descontando as mirabolâncias de Marco Polo), quer pelo futuro, já que a China se afigura como a grande potência das próximas décadas. Temos aqui as impressões de professores, embaixadores, empresários, jornalistas, chinesas que se apaixonam por portugueses na China, chineses que encontram a cara-metade em Portugal… Um livro de encontro de culturas, economias, filosofias, vidas.
Mais do que a história da relação Portugal-China este livro oferece-nos a pequena história, os choques e encontros pessoais, a admiração com o céu azul de Lisboa (em Pequim, Xangai, Macau o céu está sempre cinzento devido à nuvens ou à poluição), o achar os doces portugueses demasiado adocicados e o prato principal demasiado salgado (porque para os chineses costuma ser adocicado), a habituação aos beijinhos na cara “sem os limpar inconscientemente” (na China, mesmo na cara, são reservados aos maridos e namorados), o não ter que arrotar de propósito após uma refeição nem ter de se assoar às escondidas, como no Extremo Oriente…
Não se lê uma página deste livro sem nos divertirmos, pensarmos sobre nós próprios enquanto povo e país ou aumentarmos a nossa cultura geral. Temos a adaptação aos costumes, alimentos, tradições do outro, mas também temos a sabedoria chinesa. Mais exemplos. Existem mil maneiras de confecionar bacalhau – é sabido. A família Lu, que nunca tinha provado este peixe, arranjou a 1001.ª, “bacalhau com puré de batata à família Lu” (a receita está na pág. 89), e agora dá-a a outros chineses residentes em Portugal. Por seu turno, Ran Mai, que já deixou levar pauzinhos para restaurantes e cantinas, sabe agora que quando os carros têm fitas brancas nas antenas “vão festejar um belo casamento, e não um pesaroso funeral”, já que no seu país de origem o branco é para os funerais, enquanto os noivos vão de vermelho. Exemplos da sabedoria chinesa chegam pela escrita de António Graça de Abreu, um dos quatro portugueses que havia em toda a China, quando em 1979 João de Deus Ramos abriu a embaixada portuguesa em Pequim. Vale a pena reter o que o filósofo Han Feizi escreveu 240 anos antes de Cristo sobre governar através das leis: “Podeis esperar, em geral, encontrar cerca de dez homens honestos em cada reino, o que é uma média excelente. Mas o Estado deve contar com uma centena de cargos. Daí resultar que tendes mais postos oficiais do que homens de bem para os ocupar, o que dá dez homens honestos e noventa patifes para preencher os lugares do Estado. Pode-se portanto apostar que o resultado será a desordem generalizada, mais do que um governo organizado. Eis porque o soberano sensato acredita num sistema político e não nas capacidades individuais, tem fé num método e desconfia da probidade pessoal” (pág. 154).
Este livro é publicado pela Mare Liberum Editora, ligada do ISCIA (Instituto Superior de Ciências de Informação e Administração – Aveiro) e responsável pelas revistas científicas “Geopolítica” e “Estudos Aveirenses”.
* Os chineses chamam ao seu país “Zhong-guo”, que quer dizer “país do meio” ou “do centro”, revelando assim uma visão sinocêntrica; para eles, Portugal é “Putoya”, que quer dizer “país das uvas”.
J.P.F.
