Lectio Divina – 6 Paulo VI dizia que a contemplação “é aquele esforço de fixar o olhar e o coração em Deus”. No contexto da leitura orante da Palavra de Deus, a contemplação adquire algumas especificidades porque fruto de uma caminhada orante já feita; não é algo que surge do exterior, mas é o ponto de chegada de um itinerário e ao mesmo tempo o ponto de partida para a vida.
O objeto da contemplação é Deus na sua bondade e no seu amor que se manifesta ao Homem e o envolve. Neste sentido, não é tanto um resultado de técnicas ou esforços ascéticos como acontece em outras correntes orantes e de outras religiões, mas é antes dom da oração dentro de nós. Este dom da oração torna-nos capazes de fixar o olhar e o coração em Deus e de aprender a pensar segundo Deus (cf. Mt 16,23). Esta é a grande especificidade da contemplação no itinerário da leitura orante da Palavra, olhar Deus no seu amor de olhar a vida a partir do olhar de Deus.
Olhando desta forma este tempo da lectio divina, a contemplação é ponto de chegada, mas abre-se então a um novo início que resulta do facto de olhar para a vida segundo o olhar de Deus. Neste percurso já nos colocámos diante de Deus, escutámos e lemos a Palavra, estudámo-la e compreendemos o seu significado; “ruminámos” meditando a Sua presença viva em nós e apresentámos tudo isto em oração diante de Deus como projeto para a nossa própria vida. Agora, a contemplação como acolhimento do olhar de Deus sobre o mundo manifesta-se como olhar sobre a vida, os acontecimentos e a sua história, o caminho da comunidade, etc. Santo Agostinho exprimiu bem este sentido de contemplação dizendo que Deus restitui-nos o olhar da contemplação e assim ajuda-nos a decifrar o mundo e a transformá-lo para que seja novamente uma revelação de Deus.
A contemplação assim entendida neste itinerário é o contrário da atitude de quem se retira do mundo para poder contemplar Deus. A contemplação na leitura orante é antes o acolhimento do olhar de Deus para se imergir no mundo e aí descobrir e saborear a presença ativa e criativa da Palavra de Deus, comprometendo-nos com o processo de transformação que a Palavra por meio de nós provoca na história. A contemplação, em resumo, é o resultado da leitura que fica no nosso olhar e que nos ajuda a discernir o mundo de um modo novo.
Ao contrário de indicações por nós dadas nos últimos tempos, não existem técnicas para alcançar a contemplação, mas apenas a prática da leitura orante nos vai dando a capacidade e a disponibilidade deste acolhimento e deste dom de Deus em nós.
João Alves
