Poço de Jacob – 115 Ele e ela têm quase trinta anos. A ele conheci-o há mais de 25 anos. Pequenino. Num lugar pobre da serra. De uma família humilde, pobre, mas muito séria e honesta. Exemplo das boas famílias cristãs. Cresceu junto ao altar, na Missa que uma vez por mês se celebrava em sua casa, pois o lugar não tinha capela… até ao dia que as oito famílias decidiram construí-la, linda e pobre, mas muito acolhedora, até na paisagem envolvente, em honra da maior santa dos tempos modernos: Teresa de Lisieux.

Cresceu, rezou muito, trabalhava sem tréguas, obedecia a tudo. Humilde, sério, forte e generoso. Viajou comigo por esse mundo fora. Falar de Santa Teresinha, para ele, sobre quem ouvia desde pequenino, era o máximo. A sua devoção mais antiga!

A ela, conheci-a há pouco. Talvez há nove anos, com a mudança de paróquia. De família igualmente nobre, pobre e trabalhadora, cheia de reveses na vida, mas com vontade de lutar. Ajudava no altar e com tanta perfeição que me dava enorme segurança saber que ela estava na missa pela certeza de que tudo ia estar bem orientado. Mais tarde, o nosso centro social deu-lhe um posto de trabalho que espero que dure muitos anos para ela e para nós, que só lucramos com a sua presença.

Um dia, por gostar tanto dos dois, embora não se conhecessem, pois um era da antiga paróquia, na serra, e outro destes lados da Bairrada, fomos a Israel. No meu pensamento, ofereci os dois ao Senhor, pois coisa tão boa, pensava eu, só poderia ser para Ele, somente. Até porque, o sentido do outro que necessita estava muito apurado nos dois, não fossem eles da Cruz Vermelha, ocupando seu tempo livre no cuidado dos demais, e também, ele, no INEM. Ela e ele, catequistas conceituados e formados. Ela e ele, missionários de Maria de Schoenstatt. Ela e ele, animadores dos grupos de jovens que dirigiam. Ela e ele, na missa e nas adorações, por vezes longas, na Igreja… Enfim, apóstolos. Assim, nas margens do mar de Tiberíades, bem ali no local da tríplice confissão do amor de S. Pedro ao seu Mestre, eu desafiei os dois a ouvirem a voz do Mestre que ali chamou discípulos a seguirem-no. E deixei-os sós a meditar com os pés na água abençoada, enquanto eu dizia ao Senhor para “aproveitar” a oportunidade… E lá seguimos viagem.

O Senhor não costuma fazer as coisas de repente nem por encomenda, pois a sua vontade é que vale. Surpresa minha e de alguns que sabiam das “minhas intenções” de um ser padre e a outra religiosa, quando os vejo de mãos dadas pelas ruas de Jerusalém! Caí para trás. Não era isso que eu pretendia. Afinal, ali, no Mar, o Senhor não convocava discípulos para serem só Dele? Não sei qual será o futuro dos dois, pois já namoram há anos; não sei bem com que tempo, pois entre emprego e ajuda ao próximo e trabalho na Igreja, resta-lhes pouco um para o outro, sem terceiros no meio, mas entendi o que já sabia: que a família é a mais nobre das vocações. Que de Santos pais podem sair santos sacerdotes e religiosas, embora isso nunca seja regra para o Senhor. Que o apostolado não implica vida sacerdotal e religiosa… E o que seria da Igreja, se não houvesse leigos que se dedicam até a apoiar os seus padres, já que, por vezes, somos os que menos ardor manifestamos na nossa dedicação ao próximo e a Deus? O que seria do padre sem o leigo fiel? Embora estes clamem por santos sacerdotes que os amem e orientem, longe do legalismo, por vezes desumano, que invade os nossos cartórios em que a lei está acima do homem e não ao serviço dele… E sei que o Senhor, ali, no Mar de Tiberíades, começou nos dois uma obra boa que Ele levará a bom termo, como fez e faz com tantos casais maravilhosos que também são os nossos queridos pais.

Vocação é chamamento e não exclusivamente ser padre ou freira. Vocação é escuta para O seguir, naquele caminho que Ele sonhou para nós. O ardor dos dois, sob o olhar da Teresinha, levou-os a dedicarem-se às missões nos combonianos, ou não fosse ela, a Teresinha, também padroeira das missões. E o irmão dele, que eu tive a honra de batizar, é noviço dos missionários combonianos. É caso para dizer ao Senhor que continue chamando, pois estamos convencidos de que todos os caminhos são válidos. E como Ele diz, “os Meus caminhos não são os vossos”. Amen.

Vitor Espadilha