Fome… Porquê?

Poço de Jacob – 125 Ouvimos muitas vezes o Evangelho da multiplicação dos pães e dos peixes, como também o texto do maná caído do Céu, e até os relatos da vida de alguns santos que fizeram milagres similares, pois Jesus garantiu que “farão as mesmas obras e até maiores”! É inevitável a pergunta: Então porquê tanta fome e miséria no mundo? Onde está Deus? Por que é que a Igreja não vende os tesouros do Vaticano? Ou de Fátima? Por que anda o Papa com ouro?

Claro que sabemos que os bens do Vaticano são propriedade cultural da Humanidade, como o Louvre, o Pergamon de Berlim ou o Prado de Madrid… E que a Igreja nunca deixou de estar ao lado dos pobres, embora, por vezes, a hierarquia mais alta ande a beijar os pés dos ricos e ditadores. Mas a Igreja deu vidas e meios durante 2000 anos para cuidar da fome e ignorância, com escolas, orfanatos, universidades, bibliotecas, missões, saúde, medicina, ciência e fé… Ainda hoje, ela e outras confissões religiosas o fazem por amor a Deus e, consequentemente, amor aos homens.

Não é o tesouro do Vaticano que vai resolver a fome do mundo. O Papa vive pobremente nos seus aposentos papais embora não o vejamos! O Vaticano e Fátima ajudam anualmente pessoas de todo o mundo com milhões de euros, que os noticiários não noticiam por não ser como os escândalos sensacionalistas que os animam… A Igreja tem uma doutrina social maravilhosa que ninguém segue nem quer conhecer. E os que a defendem até são assassinados em certos pontos do globo, sobretudo onde existem os latifundiários e as grandes riquezas. A corrupção existe e os bens essenciais são desviados do faminto em nome de uma economia mundial alimentada pelo capitalismo que é uma praga tão ou mais terrível que o comunismo ou os outros ismos que conhecemos!

Deus deu de comer a todos os homens. Os bens dariam para todos. O crescimento demográfico não assusta Deus… Ele sabe selecionar, até permitindo que a natureza da crosta terrestre siga sua evolução como sabemos pelas catástrofes. Não precisamos de mortes e guerras para nos excluirmos, pois, como em tudo, a seleção é natural! Mas podíamos perguntar também: E os pobres da minha cidade e do meu país, já que não vejo os da Etiópia? Onde está Deus? Que faz Ele? A resposta é que Ele te colocou ali e há outros crentes, cristãos ou não, para que não haja pobres na tua rua, simplesmente por estarmos, tu e eu, ali.

Se todos os cristãos do mundo e nós cuidássemos somente dos pobres de cada bairro, os problemas do mundo reduzir-se-iam incrivelmente. Mas o bem-estar e o amor egoísta andam de mãos dadas aos que pedem o pão nosso de cada dia para si e não para nós! O comodismo. O desejo de riqueza. O poder. O consumismo. Atingem até padres e bispos. Basta ver pelos carros que se usam, para não dizer mais, e colocar-se na cabeça de um pobre. O seu pastor chega de carro caríssimo, quando ele não consegue andar com seu carro velho, usado e avariado, e cheio de filhos para criar.

Viver pobremente deveria começar por nós, os ditos da Igreja, embora não devamos viver de modo a que também precisemos de ajuda, pois temos de ajudar. Mas há muito para cada católico analisar. Um dia encontrei um jovem aflito para pagar a sua casa recém-construída. Um palácio. Perguntei para quê uma casa tão grande. A resposta siderou-me: “Para que os meus vizinhos tivessem inveja de mim”. E aí está a razão de viver de muita gente, inclusive a ostentação pobremente humana e cultural dos emigrantes que nos visitam. Partilhar, sem deixar de ter o seu carro e a casa linda e dinheiro para o lazer, quando a vida o permite, enriquece. E Deus enche os bolsos na hora própria, porque não se deixa vencer em generosidade.

Um dia, alguém, com pena de não ganhar no euromilhões, recebeu como resposta: Aos seus, Deus não dá milhões, senão quando as obras são sociais… Aos seus Deus dá, mas um pouco de cada vez, conforme a necessidade. Ele não tira nada. Ele dá tudo.

Então, a terceira pergunta: Então por é que eu não saio dessa indigência? Dessa pobreza? Um dia uma pessoa queixava-se contra Deus, e eu perguntei porquê. Ela respondeu-me que já não tinha dinheiro para ir ao moda fashion de Milão como ia antes de gastar tudo o que Deus lhe tinha dado. E Deus, agora, era o mau da fita. A verdade é que a resposta a esta pergunta é simples e está no Evangelho: O único problema é que estamos doentes no campo da confiança e do abandono! A medida da liberalidade de Deus é a nossa confiança, disse Teresa de Lisieux. Vejo gente chorando por antecipação quando o parente vai fazer exame ao IPO. Parece que querem à força o cancro, tanto pensam nele. Choremos depois, quando o inevitável acontece, e ainda assim temos de dar luta e, de resto, confiar. Se tu estás pobre, talvez não confies o suficiente… Ou quem sabe se Deus não se fia de ti, como Ele disse no Evangelho uma vez e Nossa Senhora repetiu em Fátima, por saber que não te é conveniente o que pedes… Mas nunca te faltará como essencial.

Justiça, amor e confiança são a solução para as três questões… Pois o Pão de Deus nunca deixará de se multiplicar!

Vitor Espadilha