Poço de Jacob – 129 No nosso mundo de hoje e de sempre, muita gente deu a vida por altos ideais éticos, religiosos… São verdadeiros heróis de princípios firmes, normalmente ao lado das minorias, com quem e por quem lutavam com obras e palavras. Mahatma Gandhi, Martin Luther King, Madre Teresa de Calcutá, Dalai Lama, Nelson Mandela… Nomes que conhecemos, alguns ainda na terra, pois dar a vida não significa necessariamente ser assassinado e virar mártir. Temos grandes personagens no tempo do nazismo, como Schindler, Irena… e em qualquer época da história humana, na sua maioria anónimos cujos nomes e proezas não ficaram registados na história mas no Coração de Deus. Bhatti foi um deles. Assassinado no Paquistão no dia 2 de março de 2011. A sua biografia saiu agora, publicada pelas Paulinas. O seu rosto sorridente, de homem jovem, apareceu nos ecrãs do mundo inteiro como mais um dos muitos ministros assassinados. Mas foi um apontamento de reportagem breve, como um comercial, pois mortes assim ocorrem diariamente em todo o mundo. Mas ainda bem que não se deixou ficar Bhatti pela notícia breve. A sua Bíblia, que ele lia e meditava todos os dias de manhã, está solenemente exposta na Igreja de S. Bartolomeu de Roma, dedicada aos mártires cristãos dos séculos XX e XXI. No seu bolso, ele trazia o Terço, que desfiava diariamente a Maria. E a Eucaristia residia no seu coração, se não todos os dias, no domingo, sem dúvida.
Alguém disse há dias que o que importa hoje, na Igreja, não é que existam praticantes e militantes católicos. A Igreja precisa de almas enamoradas. São estas as únicas que podem mudar o mundo, já que ser cristão em Portugal é fácil e a mediocridade atinge todos os graus da hierarquia católica ocidental como doença grave. Nós próprios perseguimos as minorias, como sejam os religiosos, os de cor diferente, partido, opção sexual, embora nos chamemos cristãos.
Em Portugal o catolicismo é só maioria de nome. Mas ser como minoria, e perseguida, num país cheio de fundamentalistas muçulmanos ou hindus, com ameaças de morte a pender sobre a cabeça, neste caso, ou uma pessoa se sente enamorada por Jesus, mais que por um ideal ético, ou então prefere converter-se à religião da maioria para não ter problemas. Foi isso que aconteceu na Europa medieval por parte de judeus e muçulmanos, ameaçados pelos reis cristãos, e com os índios e negros das Américas e de Africa, ameaçados pelos conquistadores cristãos. Hoje, são os cristãos que ou sucumbem à pressão ou dão a vida pela sua fé. Alguém também disse que a Igreja está farta de cristãos indefinidos e de padres medíocres. Ela precisa de pessoas que movam o curso da história. Bhatti era uma delas. Desde os 11 anos, apaixonado por Jesus, lutou com os meios que ia dispondo Deus no seu caminho para que pudesse professar livremente a sua fé… e foi ajudando os outros a fazer o mesmo. Como estudante, organizava e participava em manifestações que reivindicavam os direitos das minorias de professarem a sua fé e não só. Muitas vezes saiu ferido em confrontos que provocaram, do lado dos manifestantes, centenas de mortos. Nunca desistiu. Lutou sempre. Até que chegou a ministro das minorias. Lutou contra leis injustas. Aliado a movimentos católicos, auxiliou seu povo, mesmo a maioria muçulmana, num enorme terremoto que provocou milhares de vítimas. Protegia e escondia os familiares das vítimas de morte em caso de perseguição. Percorreu o mundo falando dos direitos que defendia. Pediu ajuda internacional. Podendo salvar a sua pele e a da sua família, emigrando para o Canadá, preferiu viver na sua amada terra paquistanesa e defender os altos ideais que presidiram à criação do seu país, ainda muito jovem na geografia mundial. Um dia, num discurso, ofereceu a sua vida, até com o possível derramamento de sangue, a Jesus de Nazareth, para que o Senhor o aceitasse como grão de trigo caído pela paz.
Nada o fazia recuar. Não se casou para ser mais livre para lutar e ajudar os muitos que o solicitavam em todo o país. Uniu-se aos muçulmanos liberais, aos hindus, aos protestantes, aos de diferentes correntes religiosas e etnias, para criar uma associação que fizesse da minoria uma força de união. O Papa recebeu-o em audiência. E, naquele 2 de março de 2011, terminada a sua leitura da Bíblia, na oração da manhã, foi assassinado, calando-se a voz, mas deixando atrás de si uma obra feita em tão poucos anos e gente com vontade de lutar e dar a vida. Vale a pena ouvi-lo: “Eu digo que enquanto eu tiver vida, até ao meu último suspiro, continuarei a servir Jesus e esta humanidade pobre e sofredora, os cristãos, os necessitados e os pobres… Conheço o significado da Cruz e sigo-a… Jesus é o centro da minha vida e quero ser o seu seguidor…”
Vitor Espadilha
