O Arcebispo de Braga e a coordenadora geral do evento apontam à continuidade do projeto de encontro entre crentes e não crentes.
O arcebispo de Braga elogiou a realização do Átrio dos Gentios, projeto de encontro entre crentes e não crentes promovido pelo Vaticano, que a diocese acolheu entre sexta-feira e sábado da semana, afirmando que a iniciativa vai ter continuidade.
“O Átrio dos Gentios é apenas uma porta que se abre e o fundamental está no que se encontra para lá dessa porta, no que poderá surgir”, disse D. Jorge Ortiga, no final do evento.
O prelado revelou que o objetivo foi fazer que a Igreja Católica “seja este átrio aberto”, para permitir que diversas sensibilidades “possam convergir para gerar fraternidade”, sem que ninguém tenha de renunciar à sua própria identidade.
“Podemos e devemos lutar muito mais pela justiça, pela comunhão, para que nos sintamos verdadeiramente pessoas unidas, que abrem o seu coração, para através da partilha aquecer um pouco mais os tempos um pouco sombrios que correm”, declarou.
O também presidente da Comissão Episcopal da Pastoral Social e Mobilidade Humana sublinha que “viver hoje implica direitos” e que a realidade do desemprego, em particular junto dos mais jovens, é “um alerta” para Portugal.
D. Jorge Ortiga elogiou a “adesão extremamente significativa” do público às várias iniciativas propostas em Guimarães, capital europeia da cultura, e Braga, capital europeia da juventude, que foram de conferências a concertos, passando por seis painéis em volta do tema central do átrio, ‘O Valor da Vida’, desde várias perspetivas.
“O Portugal de hoje precisa de refletir sobre os valores, mas o valor dos valores é efetivamente a vida, revestida de uma dignidade sublime que ninguém pode ignorar, não apenas a vida de alguns, mas a vida de todos”, referiu.
A coordenadora geral do evento, Isabel Varanda, reforçou a ideia de que “a casa continua aberta”, assinalando o “espírito de grande encontro” numa “grande festa” nas duas cidades do Minho. “O átrio vai continuar”, precisou, adiantando que a organização quer publicar em breve “todos os textos” da sessão.
Isabel Varanda destacou o facto de 20 igrejas de Braga terem estado abertas durante o sábado, com uma luz à sua entrada, convidando as pessoas e mostrando a sensibilidade de “mostrar que há lugares no mundo onde é bom estar, onde é bom entrar” sem ter de pagar, crente ou não. “Precisamos de redescobrir a gratuidade”, concluiu, lembrando que todo o Átrio dos Gentios decorreu sem qualquer encargo para os participantes.
O Átrio dos Gentios concluiu-se numa Catedral de Braga lotada, ao som das palmas que acompanharam a apresentação da ‘Missa Brevis’, de João Gil, que também a interpreta integrado no grupo ‘Cantate’.
O cardeal Gianfranco Ravasi, presidente do Conselho Pontifício da Cultura – organismo da Santa Sé que dinamiza este projeto – falou aos presentes para assinalar o “êxito estrondoso” do evento e manifestar a sua admiração pela cidade e as gentes de Braga e Guimarães.
Ag. Ecclesia
Ecos de algumas intervenções
A consciência da sacralidade da vida que nos foi confiada, não como algo de que se possa dispor livremente, mas como dom a guardar fielmente, pertence à herança moral da humanidade. «Mesmo entre dificuldades e incertezas, cada homem sinceramente aberto à verdade e ao bem, com a luz da razão e não sem o secreto influxo da graça, pode chegar a reconhecer na lei natural inscrita no coração (cf. Rm 2, 14-15) o valor sagrado da vida humana desde o primeiro momento do seu início até ao seu termo» (Enc. Evangelium vitæ, 2). Não somos produto casual da evolução, mas cada um de nós é fruto de um pensamento de Deus: somos amados por Ele.
Bento XVI, na mensagem enviada aos participantes da sessão portuguesa do Átrio dos Gentios
«Uma das grandes tragédias do nosso tempo é que as grandes perguntas já não se coloquem».
Cardeal Gianfranco Ravasi, presidente do Pontifício Conselho da Cultura
A poesia «é uma linguagem de intensidades» que fala «à cabeça e ao coração», contém o «silêncio» e convoca a «alegria», podendo tornar-se potenciadora do «devir».
Ana Luísa Amaral, poetisa que se apresentou como uma pessoa não crente à «procura» de Deus.
Num mundo que se caracteriza pelo «excesso de armas, consumo, imagens que substituem a realidade e ausência», a «maior ameaça» poderá ser a «aceitação da diminuição dos afetos e a tristeza como inevitável».
Tolentino Mendonça, padre e poeta
«A maneira como cada um encara a dignidade da vida e do morrer é pessoal (…) [A minha fé] partiu e deixou no seu lugar uma angústia metafísica».
João Lobo Antunes, neurocirurgião e ensaísta
Fonte: www.snpcultura.org (Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura)
