Contrastes reais, não apenas modos de pensar diferentes

Chegaram as duas revistas no mesmo dia, assim coladas uma à outra. Ambas de instituições ligadas à Igreja. Já as conheço há muito tempo, mas esta coincidência da sua chegada não me deixou indiferente. Trata-se do “JO”, órgão da Juventude Operária Católica (JOC), e de “Arautos do Evangelho”, publicação de uma organização de origem brasileira, ainda nova, mas nascida já no após concílio. Como cartaz publicitário, junta ao título “Associação Internacional de Direito Pontifício”. Por aqui não perde.

Onde estão os contrastes? Na Igreja Católica, ao contrário de em décadas passadas, o pluralismo já não é uma palavra vã. Porém, tratando-se de coisas do interior da Igreja, o mínimo que se pede é que os critérios de pensar e de agir, ainda que se expressem de modo diferente, se afiram de harmonia com o Vaticano II, no que se refere à imagem da Igreja Povo de Deus, à sua missão evangelizadora no seio de um mundo plural, secularizado e laico. Também não é coisa de somenos que a hierarquia apareça no lugar próprio de servidora do Povo de Deus.

Nesta perspetiva, os contrastes são muitos, quer em relação aos conteúdos e objetivos, quer aos meios utilizados. O “JO” é voz de militantes cristãos que, com valores evangélicos, lutam no meio operário, na sociedade e no mundo do trabalho, pela verdade, a justiça, a dignificação humana e os direitos humanos fundamentais. A JOC é um movimento de fronteira da Ação Católica, de um apostolado e testemunho nem sempre cómodos nem compreendidos. O número, agora chegado, traz como tema de fundo uma reflexão empenhada sobre “Cooperativas na construção de um mundo melhor”, um artigo sobre “A reestruturação do ensino” e, a terminar, “Esperança, que desafios para os jovens?”. Tudo a falar de vida e a tentar o diálogo de cristãos comprometidos com as realidades sociais. Por ali perpassa o compromisso com Cardijn, o fundador da juventude operária católica, que lhe soube transmitir, desde o início, realismo e fidelidade ao Evangelho. Por sua vez, “Arautos do Evangelho” são páginas de clericalismo, onde abundam cardeais, bispos e padres, com o folclore de jovens com trajes militares medievais que deslumbram. Traz ainda escritos longos, recheados de ilustrações do estilo da associação, de espiritualidade, escritos em linguagem mais que ultrapassada.

Enquanto a JOC, olhada por muitos com desconfiança, se procura manter fiel à Doutrina Social da Igreja e ao Concílio, sobre os Arautos do Evangelho interrogo-me, desde a primeira hora em que dei pela sua existência como mais uma nova associação, sobre o que é para esta gente evangelizar e dialogar com o mundo atual, recheado de problemas que afetam a vida das pessoas e que não passam por manifestações de sabor folclórico. Não creio que a linguagem usada, nem a beleza medieval das fardas das legiões de jovens aderentes, bem como o som timbrado das suas trompetes, sejam o melhor caminho para anunciar Jesus Cristo, hoje, mesmo aos jovens.

Não há duas sem três, diz o povo. No dia seguinte, o correio trouxe-me a revista “Transformar”, de leigos cristãos, amigos do Forum Abel Varzim, um padre português que a história guarda pela sua lucidez, coragem e fidelidade ao essencial. Procuram estes militantes leigos tornar atual a luta por ele travada há mais de quarenta anos, em ordem a uma sociedade portuguesa solidária, justa, humana e fraterna. Este número reflete sobre “Viver em democracia”, “Os jovens e o desemprego”, “Solidariedade entre gerações” e ainda, para incomodar, a interpelação “Desistir? Não é solução”…

O Vaticano II foi para muitos militantes cristãos leigos uma rajada de ar fresco e estimulante para prosseguir, redimir tempo perdido, confirmar no projeto de servir as pessoas e as comunidades, dar à Igreja o rosto com que tanto sonhou o Papa João XXIII. Por isso, eles continuam o seu rumo. Quem não viveu o Concílio ou não absorveu o seu espírito escuda-se em títulos exteriores que muitas vezes trazem, ao de cima, o que foi solenemente rejeitado pelos padres conciliares. Por isso, vale a pena o desafio de nunca desistir, mesmo com ventos contrários ou menos favoráveis. Quem sabe o que quer e para onde vai não perde a rota e acaba sempre por chegar, mesmo com as vestes enlameadas e os pés a sangrar.

Tudo o que, na Igreja, mais deslumbra do que forma não deixa de pagar o seu tributo ao tempo, que é um juiz inexorável. Mas, vivendo nós num mundo que esquece Deus e onde muitos homens esquecem os outros homens que sofrem injustiças e são espezinhados na sua dignidade, pode a Igreja e cada cristão perder o seu tempo e gastar suas energias em coisas secundárias, ainda que vistosas? Evangelizar é, também, testemunho que credibiliza o anúncio de Jesus Cristo.