Discutir?

A discussão é diária: para uns, está-se a destruir o Estado social; para outros, é preciso reformar o Estado social. E o povo vai assistindo a esta querela estéril, enquanto deita mãos à obra e procura pôr de pé e alimentar iniciativas que construam o Estado social.

Iniciativas do poder local, instituições particulares de solidariedade, organizações não-governamentais, grupos de cidadãos, pessoas singulares, desenvolvem uma verdadeira economia social, com a manutenção ou mesmo criação de postos de trabalhos, a prestação de serviços e cuidados de menor custo, a geração de atividade e benefícios colaterais.

Enquanto isso, os paladinos dos “direitos adquiridos” ignoram qualquer espécie de solidariedade, omitem a correlação de deveres, desencadeando perturbações empobrecedoras, dos próprios e de todo o país, confundindo o direito à manifestação do descontentamento com o espírito individualista que apenas olha para o seu umbigo.

É fonte de esperança a onda de solidariedade manifestada na resposta ao Banco Alimentar contra a Fome, apesar da truculenta campanha de perversão das palavras. Critica-se a caridadezinha… Mas, se não fora a generosidade dos portugueses, muito mais fome se passaria nesta terra que é a nossa. Poupados os prejuízos causados por greves difíceis de explicar, seguramente se poderia chegar muito mais longe.

Enternecem e comovem, a contrastar com o egoísmo de alguns, os largos milhares de voluntários que arregaçam as mangas, que dão horas, dias, semanas de trabalho gracioso, para servir a causa dos mais pobres. E os milhares de cidadãos anónimos que, no segredo das suas casas, anos a fio, cuidam desveladamente dos seus idosos e doentes, aliviando o peso da solidão ou as dores dos corpos gastos pela doença. E os milhares de devotados à causa do próximo, que lideram em absoluta gratuidade centenas e centenas de instituições sociais, iniciativas de devolução e preservação da dignidade das pessoas!

A saudade de um coletivismo, que já deu provas de não resolver os problemas da pessoa humana, está subjacente a muita contestação. A ideia de que o Estado social tem de ser o detentor de todas as iniciativas, o empregador de todos os cidadãos, o prestador de todos os serviços, é a matriz, é o paradigma indiscutível para muitos portugueses, desresponsabilizando o indivíduo, subalternizando a iniciativa pessoal ou de grupos.

O Estado é depois da pessoa! E está ao serviço da pessoa integral e da integralidade dos cidadãos. Também na iniciativa, ele é depois da pessoa! Cabe-lhe fomentar, monitorizar – como se diz agora -, coordenar essa iniciativa. E tomar a responsabilidade direta da sua quota parte, de forma exemplar e estimulante. Garantir saúde e educação, promover emprego não é a mesma coisa que prestar diretamente esses serviços.

Vamos discutir menos e fazer mais: concertando a iniciativa pessoal ou de grupos com as prestações do Estado, pondo de parte preconceitos ideológicos ou interesses ocultos, para abrir janelas de esperança, para consolidar vontades de vencer.