Perdi-me na sala de exposições da Santa Casa da Misericórdia de Aveiro a apreciar, a gozar, a analisar os trabalhos que o Artur Fino recentemente nos ofereceu, para nosso deleite.
É um mundo novo este que o Artur abordou plasticamente. Mais uma vez conseguiu surpreender-nos, nunca abandonando, contudo, o seu mundo da fatura abstrata.
Da consistência, da robustez matérica da sua pintura anterior, Fino salta para um mundo etéreo, onde a poesia se instala por conta de uma subtil utilização de meios aparentemente simples que só uma capacíssima técnica permite transformar em obra de arte.
Cada quadro exposto, pequeno de dimensão física, é um poema cuja leitura faculta a cada um de nós momentos que muito profundamente nos enriquecem.
Não é ligeira esta nova fase criativa de Artur Fino. Longe disso. Cada quadro abre-nos inesperadas portas para que a nossa imaginação seja alavancada até céus inusitados onde se fica preso a uma espiritualidade que invade o mais íntimo de nós próprios.
Não é pintura; também não é desenho; mas é da soma de tudo isto que resulta um sonho que se esparrama no branco da frágil superfície de suporte. É uma escrita sem escrita onde se descobre um poema que se desnuda e nos envolve. É, repito, efetivamente um mundo novo aquele que Artur Fino desbravou, e, creio, vai continuar a desbravar, tal a riqueza das potencialidades que esta nova abordagem permite adivinhar.
Artur Fino sempre foi um experimentalista. Um insatisfeito consigo próprio, um insatisfeito com tudo aquilo que vai saindo do seu espírito irrequieto através das suas hábeis mãos. É um pintor que se deixou apaixonar pela expressão abstrata e dela nunca se arredou. Assim manifesta a sua coerência artística, à qual se agarra sem tergiversar.
E esta forma de sentir a sua arte vem desde que o conheço. Ele foi um dos que fundaram AVEIROARTE, e, anos a fio, principalmente com Jeremias Bandarra, constituíram o esteio dessa associação que vai a caminho de meio século de existência, na senda da descoberta de novas formas de expressão.
Artur Fino é fruto de um tempo em que era necessário lutar contra o “tempo” desse tempo. É um dos atores da mudança de mentalidades que se começou a operar , nos idos anos sessenta, por terras de Aveiro.
Era proveniente da fornada de jovens saída da extinta EICA, Escola Industrial Comercial de Aveiro, fornada essa que conseguiu alterar muito do marasmo cultural reinante em terras da Ria.
A sua irreverência, a irreverência desses jovens, abriu portas no mundo do jornalismo, do teatro (lembremo-nos do CETA), procurando tornar acessíveis a todos os bens da cultura aberta, da cultura que afastava estreiteza de ideias, da cultura que permitia respirar ares novos de tempos novos.
Na busca desses ares novos permanece Artur Fino, não deixando que confundam, balofamente, inovação e experimentação, com atitudes elitistas que estão nos antípodas do seu exemplo de vida.
A sua última exposição [nos finais de 2012] é bem prova disso mesmo.
Gaspar Albino
