Riqueza e intensidade do testemunho
Foi curto no tempo, mas de uma tal riqueza e intensidade testemunhal de vida entregue e de humildade contagiante, que multiplicou por muitos anos a curta duração que o caraterizou.
A debilidade do nosso Papa contrastava com a firmeza nas difíceis decisões que teve que tomar. Verdadeiro Pastor a dar a vida pelas ovelhas do rebanho do Mestre, selou a sua entrega com este gesto único e corajoso a revelar a profundidade do seu amor à Igreja que tão apostolicamente serviu. Que a sua oração silenciosa seja para todos nós alavanca a manter-nos firmes na fé.
Assunção Costa, diretora do Secretariado da Catequese
Papa da autoridade
pela palavra e não pela lei
Não tenho a presunção de afirmar que saberei o que a história reterá deste pontificado. Mas estou seguro de que o presente muito beneficiou do significado de a primeira encíclica do Papa Bento XVI ter sido sobre o amor, com a coragem de registar, com a força e a intemporalidade da letra escrita, não só o amor abstrato e quase platónico, mas também a beleza das manifestações sensíveis do amor. E, acima de tudo, a implicação concreta, para a vida do mundo, de Deus ser amor. O Deus de Bento XVI não é o da Razão, apesar de «relativismo» ser uma das ideias mais fortes dos seus documentos, mas sim «Amor» que envolve todo o ser do Homem.
Bento XVI foi, também, o Papa da autoridade pela palavra e não pela lei, o que, para além da relevância do facto em si, constituiu surpresa, pelo seu passado de Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé. Num tempo tão avesso a todos os autoritarismos, Bento XVI soube perceber que o poder do que é dito não pode vir exclusivamente de uma autoridade prévia, mas da intensidade e coerência das palavras. Neste registo interpreto terem-se situado as suas muitas ocasiões de encontro com os que não pensavam como a Igreja ou ele próprio (com Hans Küng ou Paolo d’Arcais), mas com quem dialogar era construção benéfica, assim como as suas investidas pela reflexão teológica sem a intenção de terem a autoridade do Magistério, de que são melhor exemplo os três volumes sobre Jesus de Nazaré.
Luís Manuel Silva, professor de EMRC e de teologia
“Tornai as vossas vidas Lugares
de beleza”
É uma pergunta fácil e difícil ao mesmo tempo. A sua nomeação colheu-me de surpresa, ou talvez não. Mas, confesso-o, não era dos meus “papáveis”. Nessa altura tinha jogado noutras pedras do mesmo tabuleiro já que não sou tão revolucionário a ponto de ver a escolha recair em alguém de fora. Depois vi-o assomar à dita janela, meio tímido, como que sem jeito, e gritar ao mundo que não era outra coisa que “… um simples e humilde trabalhador da vinha do Senhor!”. E eu pensei que tinha ali “morrido” o cardeal Ratzinger, o conservador, o “mau da fita” para os teólogos, a razão de ser de uma Igreja retrógrada… e mais nomes que a comunicação social foi pródiga em atribuir-lhe. No seu discurso final, agradeceu a essa mesma comunicação a ajuda que lhe deram no exercício do seu ministério. Paradoxo do papa Bento XVI! E ganhou a batalha que travou com ela!
A partir daí, destaco duas coisas essencialmente: a primeira foi dizer ao mundo que vive a reboque dos sentimentos de ocasião – e aos católicos em particular – que o diálogo fé-razão é essencial para todas as religiões e mesmo para aqueles que afirmam não ter nenhuma. Ele é essencial mesmo para a paz no mundo e como resposta à ditadura do relativismo – como referiu na sua última mensagem para o Dia Mundial da Paz. Admiro a sua inteligência lúcida em dizer a verdade, mesmo que não agradasse a todos, em não seguir ao ritmo das opiniões de momento mesmo que fosse acusado de retrógrado, em procurar consensos mesmo incompreendido em tantos momentos. Sofreu duros ataques, basta lembrar o famoso discurso de Ratisbona, mas persistiu e, hoje, muitos o recordam e o louvam por isso.
A segunda coisa, e para ser breve, admiro a sua decisão de renunciar ao papado. Ela revela uma humildade e uma coragem que só a história se encarregará de julgar. Aquele que no dia 19 de abril de 2005 se definia como “simples e humilde trabalhador da vinha do Senhor…” ali estava a dizer ao mundo que o vigor quer do corpo quer do espírito não lhe permitiam administrar bem o ministério que lhe tinha sido confiado. E partia, partia só para um mundo só, sem abandonar a Igreja… antes pelo contrário, para ficar mais dentro dela pela oração e pelo seu silêncio porque “um papa nunca está só…”, acrescentou ele no seu discurso de despedida. Admiro-o por saber sair a tempo. É uma lição a reter por todos.
A concluir, e se me é permitida a imagem com que comecei, quero dizer que iniciei o “jogo” com ele com alguma desconfiança, fui-me apercebendo da sua preocupação em colocar bem as pedras no tabuleiro da verdade – apesar do sofrimento que algumas lhe (nos) causaram, fui entrando no jogo e maravilhei-me com a frase que deixou aos artistas em Portugal que gostava que fosse o meu lema: “Fazei coisas belas, mas sobretudo tornai as vossas vidas lugares de beleza!”
E fechei os olhos quando partiu.
Manuel Joaquim da Rocha, pároco da Vera Cruz
