Saltos radicais

A Árvore de Zaqueu Que a fé é um grande salto, ninguém o nega.

Um salto para o escuro? Para o desconhecido? Até os místicos sentiram que a luz de Deus é para nós escura. Nem a pessoa mais amada é cabalmente conhecida – é sempre necessário um acto de fé, o que faz do confiar em alguém uma aventura.

O «Deus desconhecido», porém, até soma «boas razões» para a gente se aventurar: Ele é o sentido e fundamento de toda a confiança e esperança, da decisão e da constância; para Ele não há morte e ninguém se perde. Negá-lo é negar toda a esperança. Ele é a fonte da riqueza infinitamente diversa da interioridade de cada qual – essa interioridade onde nascem as temerosas angústias, por isso tão difíceis de partilhar, e onde aparece a luz cuja beleza não conseguimos exprimir.

Neste jogo de noite e luz, é que «o povo escolhido» atravessou o deserto e celebrou a primeira Páscoa na «terra prometida» (1.ª leitura). Que grande «salto»!

O termo hebraico para «Páscoa» (pesah) é de etimologia incerta, mas o próprio livro do Êxodo o aproxima do verbo pasah, que significa «saltar» ou «passar por cima» (na noite em que Israel saiu do Egipto, o «anjo exterminador» saltou – poupou – as casas marcadas com o sangue do cordeiro). Foi sobretudo S. Agostinho quem privilegiou o sentido de «passar», sublinhando a semelhança entre a «passagem do Senhor» pelas casas egípcias, a «passagem do mar vermelho», a «passagem» da paixão e morte de Cristo para a ressurreição e a nossa «passagem» de tudo o que é morte para tudo o que é Vida.

Com Josué, o povo eleito «saltou» para um novo estádio de amadurecimento: não mais será o povo infantil dependente do maná «caído do céu». Doravante, alimentar-se-á do fruto do seu trabalho.

Com Jesus Cristo, S. Paulo vê que se deu o mais radical de todos os saltos – para «uma nova criatura», para uma nova maneira de olhar e de viver a vida.

E S. Lucas? Todo o evangelho de hoje é uma variação à volta de «saltos radicais»:

Antes da parábola do «filho pródigo», Jesus fala da alegria do pastor que “esquece” as 99 ovelhas bem comportadas, ao encontrar a ovelha perdida; e da alegria da dona de casa que se esquece do prazer de possuir muitos bens, ao encontrar a moedinha perdida – e até convida amigos e a vizinhança para «saltarem» em festa!

Como quem diz: não entra pelos olhos dentro que Deus é tão amigo que é o primeiro a «saltar ao nosso encontro»? O texto do evangelho põe o Pai a correr – coisa inaudita num senhor de respeito – ao encontro do filho, saltando para os braços um do outro. O salto radical do filho é apoiado pelo amor radical. Amor que não se deixa levar pelas aparências e que não confunde a justiça dos sentimentos de apreço ou de repulsa. Um amor difícil de equilibrar, mas que é o desafio lançado aos seguidores de Jesus Cristo.

Também precisamos de um bom salto interior – até para sabermos apreciar os «saltos» dos outros, bem ou mal dados. Nestas três parábolas, Jesus invectiva os responsáveis religiosos e aqueles que descansam numa «fé tranquila», olhando de soslaio para os que não pertencem ao «grupinho».

O irmão mais velho do «filho pródigo», talvez por levar uma vida sem «sobressaltos», nem o quis reconhecer como irmão – «esse teu filho» depravado, diz ele ao Pai; mas o Pai corrigiu: «este teu irmão» saltou para a vida – salta também para a festa!

Manuel Alte da Veiga

m.alteveiga@netcabo.pt

(Este texto não segue o novo Acordo Ortográfico)